Vários Lances Revelam As Faces Do Dado: A IA a Serviço do Tradutor de Poesia
Título inspirado na frase “Un coup de dé jamais n’abolira le hasard” (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso), do poema homônimo escrito pelo poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-1898). É uma expressão emblemática do simbolismo e da experimentação poética para além do simbolismo do século XIX e do início do século XX.
Prof. Dr. Eduardo de Campos Valadares, Dep. de Física, UFMG
Traduzir poesia sempre foi um grande desafio. A visão do poeta muitas vezes nos chega como eco atenuado após atravessar o nebuloso território da palavra. Por outro lado, são estas mesmas limitações que o poeta busca superar. Toda a sua arte consiste em traduzir uma percepção singular do mundo com os instrumentos de que dispõe. Tem como missão dar nova vida a palavras gastas. Ao torneá-las, poli-las e inseri-las no seu discurso poético, ele nos desvela outros mundos possíveis. Com isso contribui para nos libertarmos da letargia da rotina1.
Coube a Walter Benjamin2, num ensaio seminal, conceber um novo referencial para a recriação poética. Segundo ele, cabe ao tradutor a tarefa de reinventar uma poesia concebida originalmente com a visão estética de outro tempo, baseada no vocabulário então corrente, no estágio da ciência e da técnica da época, entre vários outros atributos. Num caso extremo, isto implica em recuperar fragmentos de uma escrita cunhada em argila ou cinzelada em pedra ou ainda escrita de forma ilegível e apressada em papeis avulsos sujeitos à ação implacável do tempo. Um projeto desta natureza requer um esforço insano, podendo consumir anos ou décadas. No afã de encontrar o seu Graal, o tradutor corre o risco de apagar as poucas pistas ao seu alcance ou mesmo dar cabo à mensagem lançada ao mar do olvido e da indiferença.
Antes de Benjamin e depois dele, a ideia de recriação nem sempre foi consenso. Reconstruir na imaginação edifícios poéticos, com desenhos complexos e elaborados, é uma tarefa não somente desafiadora como de alto risco. Daí a atitude mais cautelosa de muitos que se embrenham nesta floresta de símbolos impressos, agora convertida em arquivos digitais armazenados na nuvem.
O advento da inteligência artificial (IA), incluindo aprendizado de máquina e redes neurais, permitiu retomar o referencial de Walter Benjamin com novas ferramentas de invenção que devem revolucionar a escrita. Ao nos disponibilizar acesso fácil e praticamente irrestrito à informação, muito do esforço descrito acima foi automatizado. Dicionários e separadores de sílabas on-line, dicionários de rima, tradução automática, entre vários outros recursos, disponibilizam, em frações de segundos, as informações desejadas. É lícito indagar sobre a tarefa do tradutor neste novo cenário.
No início do século XIX, a destruição de máquinas introduzidas no ambiente fabril, o ludismo, foi a reação natural. O trabalho repetitivo acabou sendo delegado a máquinas, cabendo aos operários tarefas mais nobres. Estamos no limiar de uma revolução tecnológica incomparavelmente mais impactante, que nos permitirá atingir outros patamares ou extinguir de vez a humanidade, algo não tão novo, considerando-se que arsenais nucleares existem há mais de meio século e continuam se expandindo.
No referencial de Benjamin, traduzir poesia significa traduzir o tempo. Isso implica em tornar a poesia do passado congenial com o Zeitgeist de leitoras e leitores de nossos dias. Uma tradução literal, ainda que grosseira, pode ser rapidamente obtida recorrendo-se a plataformas de IA. Estas plataformas, no entanto, são destituídas de emoção, um atributo essencialmente humano, daí elas serem úteis como ferramentas acessórias.
A comparação com a mineração do ouro e o garimpo de diamantes ilustra como o tradutor opera. “Para cada tonelada de terra revolvida, um grama de ouro”. Depois de muita bateia, o olho experiente do garimpeiro identifica entre o pedregulho um diamante bruto que lapidado se converte em joia.
A tarefa de revirar milhões de dados armazenados nas nuvens é delegada a algoritmos de IA. Neste novo cenário cabe ao tradutor ser a um só tempo garimpeiro e lapidador de palavras, imprimindo sua sensibilidade e intuição na nova poesia. O tradutor dialoga com o poeta e deste diálogo resulta a poesia que renasce para o tempo presente. Com isso, a proposta de Benjamin, para quem traduzir poesia é perenizá-la, vestindo-a com nova roupagem, se torna mais exequível.
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1 Paul Valéry, O Azul e o Mar, trad. Eduardo de Campos Valadares, coedição Editora UFMG/Ateliê Editorial, 2019, p.11.
2 Walter Benjamin, A Tarefa do Tradutor. Veja, por exemplo, https://traduagindo.com/2023/09/30/walter-benjamin-a-tarefa-do-tradutor/

O Autor: O Prof. Eduardo de Campos Valadares possui graduação em Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (1977), mestrado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (1981) e doutorado em Física pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (1987). Atualmente é professor titular no Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tem experiência na área de Física, com ênfase em inovação, experimentos simples e de baixo custo, projetos aplicados, ensino de física e criatividade. Além disso, traduziu para o português obras de poetas renomados, incluindo o alemão Stefan George (Ed. Iluminuras) e os franceses Paul Valéry (Editora UFMG/Ateliê Editorial) e Arthur Rimbaud (inédito). Recentemente, utilizou inteligência artificial para traduzir o poeta russo Ossip Mandelstam (inédito).
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