A Guerra do “O”: Por Que o Masculino Genérico Não Vai Morrer Tão Cedo
Maurício Pinheiro
“Quando os substantivos se referem a pessoas de ambos os sexos, o masculino prevalece para indicar o plural.”
— Evanildo Bechara, Moderna Gramática Portuguesa
A Gramática e o “Patriarcado Linguístico”
Em português, o plural genérico é masculino — e isso não é uma opinião, mas um fato linguístico consolidado. Sempre foi assim, desde os primeiros registros da língua. E não, isso não é resultado de uma cabala secreta de “gramáticos brancos europeus” reunidos para oprimir mulheres ou perpetuar o patriarcado. É simplesmente uma característica estrutural da língua: o masculino funciona como gênero não marcado, ou seja, como o padrão neutro.
Línguas precisam de mecanismos de economia: não é prático criar uma palavra diferente para cada situação possível. Ao usar o masculino como forma “guarda-chuva”, o português consegue se referir a grupos mistos de maneira direta e eficiente. O mesmo acontece em espanhol, italiano, francês e outras línguas românicas, todas herdeiras do latim.
Quando você diz “os alunos chegaram”, está incluindo todos — meninos, meninas, e até o colega atrasado que entrou no último minuto. Essa é a força do masculino genérico: ele abarca o conjunto inteiro sem precisar listar cada subgrupo. Caso o falante queira especificar que está falando só das meninas, aí sim utiliza “as alunas”. O sistema é simples, lógico e de baixo custo cognitivo.
Do ponto de vista funcional, essa estrutura garante clareza e agilidade na comunicação. Imagine se, para cada grupo, tivéssemos de dizer “os alunos e as alunas chegaram”, “os médicos e as médicas atenderam”, “os cidadãos e as cidadãs votaram”. Isso deixaria o discurso inchado e repetitivo, algo que a própria língua tende a evitar ao longo do tempo.
Portanto, o masculino genérico não é apenas uma convenção social: é uma solução linguística elegante que favorece a economia de palavras e a inteligibilidade, pilares fundamentais de qualquer sistema de comunicação.
A Cruzada da Nova Gramática Paralela
Mesmo assim, uma nova “vanguarda” decidiu que o idioma precisa de intervenção cirúrgica, como se a gramática fosse um paciente na UTI da luta cultural. E foi assim que nasceram os famosos “todxs”, “todes” e “tod@s” — uma espécie de esperanto ideológico, vendido como se fosse a vacina para todos os males sociais. Em teoria, essas formas trariam mais inclusão e representatividade. Na prática, criaram um Frankenstein ortográfico.
Ler um texto com essas construções é uma experiência quase iniciática: exige esforço, paciência e boa vontade. É como decifrar um CAPTCHA daqueles bem maldosos, que misturam letras e números em um fundo tremido. E não para por aí: a leitura em voz alta é um desafio digno de maratonas de trava-língua. “Bom dia a todêz”, “sejam bem-vindes” — nem os próprios defensores da causa se entendem sobre a pronúncia correta.
O resultado é um caos semântico que quebra a fluidez do texto e dificulta o acesso à informação, justamente o oposto do que se propõe ao falar de inclusão. Em vez de aproximar, afasta. Em vez de integrar, segrega — criando uma espécie de dialeto militante, compreensível apenas para iniciados. É quase um ritual de pertencimento: se você entende, faz parte do clube; se não entende, azar o seu.
Além disso, há um problema prático: esses termos não são reconhecidos pelos corretores ortográficos, pelos manuais de redação nem pelo VOLP da Academia Brasileira de Letras. Em textos jurídicos, científicos ou educacionais, o uso dessas formas é simplesmente inadequado, porque gera insegurança interpretativa. A linguagem, que deveria servir para comunicar de forma clara, passa a ser palco de disputas ideológicas — e o custo cognitivo recai sobre quem lê.
Tentar derrubar essa estrutura por decreto soa como legislar que π seja 3,1 porque 3,14 “ofende minorias”. Línguas mudam, sim, mas mudam pelo uso coletivo, não por pressão de militância Woke.
Inclusão que Exclui
Outro ponto irônico, que costuma passar despercebido, é que a chamada “linguagem inclusiva” frequentemente se torna excludente. O público que mais precisa de simplicidade — pessoas com dislexia, crianças em alfabetização, idosos com dificuldade de leitura e estrangeiros aprendendo português — é justamente o mais penalizado.
As formas artificiais como “todxs”, “todes” ou “tod@s” criam barreiras cognitivas adicionais: aumentam o tempo de leitura, dificultam o reconhecimento visual das palavras e reduzem a fluidez do texto. Para quem tem dislexia, por exemplo, essas palavras não possuem padrões familiares, tornando a decodificação ainda mais lenta. Para crianças, que estão em fase de aprendizado fonético, a leitura de algo que não se pronuncia de forma clara é confusa e atrapalha o processo de alfabetização.
Em contextos de ensino de português como segunda língua, a situação é ainda mais problemática: o aluno estrangeiro precisa primeiro aprender a forma normativa — e depois lidar com uma variante paralela, não oficial, que não aparece nos dicionários nem nos exames de proficiência. Resultado? Desmotivação e frustração, o oposto de inclusão.
No fim, o que deveria ser uma ferramenta de visibilidade social acaba se transformando em uma espécie de senha de clube fechado: só entende quem já compartilha o mesmo repertório ideológico. Em vez de aproximar diferentes grupos, cria uma divisão entre “iniciados” e “não iniciados”, reforçando exatamente a barreira que pretende derrubar. É como instalar uma rampa de acessibilidade com 15 degraus no meio — está lá, mas só serve para quem já sabe pular.
O Papel da IA: Dados, Não Ideologia
E se você acha que essa discussão sobre o masculino genérico é apenas uma guerra cultural entre eruditos e militantes do “todes”, aqui vai um dado curioso: até as inteligências artificiais já aprenderam a lidar com isso melhor do que muita gente.
Modelos de linguagem de grande porte — os famosos LLMs, como GPT, Gemini e Claude — são treinados em bilhões de palavras retiradas de textos da internet, livros, jornais e documentos. Quando o corpus de treinamento é curado com base em gramática normativa, os modelos reproduzem o masculino genérico como forma neutra e técnica, exatamente como manda a norma culta.
E não é só intuição: pesquisadores medem isso com benchmarks como:
- WinoBias – testa se o modelo associa profissões a gêneros de forma enviesada (“o médico / a médica”).
- CrowS-Pairs – compara pares de frases com e sem estereótipos para verificar preferências implícitas.
- Bias-in-Bios – analisa previsões de ocupações com base em biografias de diferentes gêneros.
Quando os modelos passam por esses testes e recebem ajustes (“debiasing”), eles não apenas escrevem de forma correta, como também reduzem vieses sociais em suas respostas. Em outras palavras: até as máquinas mostram que a solução está em bons dados e boas normas, não em trocar o “o” por “e” ou “x”.
É quase irônico: enquanto parte do debate humano quer reinventar o alfabeto para sinalizar uma virtude enviesada, as IAs mostram que basta aplicar o que já está na gramática para termos comunicação clara e livre de viés desnecessário.
Conclusão: A Língua Vai Sobreviver
A língua muda, sim — mas muda devagar, e muda porque milhões de pessoas, ao longo de gerações, começam a falar diferente, não porque um decreto no Diário Oficial ou uma thread no X mandou. A mudança linguística é um processo orgânico, quase biológico: nasce no uso popular, se espalha, é consolidada na literatura e só depois é registrada pelas gramáticas e dicionários. Não é algo que se force por comitê ou militância de hashtags.
Enquanto isso, o masculino genérico segue firme e forte: é ensinado nas escolas, aparece nas provas de vestibular, é usado em sentenças judiciais, discursos oficiais e nas manchetes de jornal. É a forma que todo mundo entende — inclusive os estrangeiros que estão aprendendo português.
E convenhamos: o português é um sobrevivente profissional. Já encarou reformas ortográficas que eliminaram tremas e hífens, já resistiu a ditaduras e censuras, já sobreviveu a invasões estrangeiras, globalização e à avalanche da internet. Sobrevive até certo poto até às redes sociais — esse ambiente selvagem onde a gramática é espancada diariamente em caixas de comentário.
Sobreviverá ao “todes” também. Aliás, provavelmente sem nem suar. Porque a língua é muito mais teimosa do que qualquer manifesto político: ela só muda quando quem fala muda, não quando meia dúzia de iluminados tenta reinventá-la. E, até agora, o “o” continua ali, firme no posto de plural neutro, olhando para todo mundo e dizendo: “Podem tentar, eu não vou sair daqui tão cedo.”
A beleza disso é que a língua tem seu próprio senso de humor: às vezes até adota expressões novas, gírias, memes — mas sempre decide por conta própria. O masculino genérico é a prova viva de que a língua prefere a economia, a clareza e a tradição. No final, ela sabe muito bem que sua função é comunicar, não fazer militância.
Enquanto discutimos se o plural é opressor e gastamos energia sexualizando vogais, os chineses estão liderando em IA e formando engenheiros aos milhares. Talvez seja hora de parar de tentar salvar o mundo trocando pronomes — e começar a estudar mandarim, antes que seja a última coisa que a gente ouça ao ser demitido. 再见 (zàijiàn)!
#MasculinoGenérico #GramáticaNormativa #LinguagemInclusiva #PortuguêsPluralMasculino #VOLPABL #NormaCulta #PolíticaLinguística #IA #InteligênciaArtificial #LLM #Woke
📚 Referências
- Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 38ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
- Cunha, Celso; Cintra, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 6ª ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2017.
- Academia Brasileira de Letras. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP).
- Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008.

Copyright 2026 AI-Talks.org

You must be logged in to post a comment.