Novela, Panelas e Ignorância Artificial
Maurício Pinheiro
Publicado originalmente em 2023. Substancialmente revisado e atualizado em agosto de 2026.
A inteligência artificial começava a escapar dos círculos de tecnologia e invadir as conversas comuns quando, em janeiro de 2023, deparei-me com uma de suas manifestações mais inesperadas: uma panela em uma novela brasileira.
Eu estava no sofá do meu apartamento na praia, lentamente me entregando ao sono depois de um dia exaustivo envolvendo sol, cerveja e aquele mar azul-turquesa — o tipo de sacrifício intelectual que, de vez em quando, somos obrigados a fazer durante o verão brasileiro.
Infelizmente, a Globo tinha outros planos para mim.
A novela Travessia estava passando na televisão. Eu prestava pouquíssima atenção até que uma cena, de repente, me resgatou do sono. Mãe, pai e filha estavam mergulhados no que parecia ser uma grave crise familiar provocada por um dos grandes dilemas tecnológicos de nosso tempo:
uma panela.
Não uma panela qualquer, evidentemente.
Uma panela com inteligência artificial.
A mãe reagia com algo próximo do êxtase religioso. A filha, aparentemente promovida sem aviso prévio ao cargo de especialista da família em inteligência artificial, apoiava a mãe com entusiasmo. O pai parecia horrorizado.
Sua preocupação era séria.
O que aconteceria com os cozinheiros?
Imediatamente despertei.
Não porque a civilização estivesse prestes a ser destruída por utensílios domésticos, mas porque aquela cena conseguiu condensar em poucos minutos quase tudo o que havia de errado na discussão pública sobre inteligência artificial no início de 2023.
Já estávamos começando a chamar praticamente qualquer coisa que contivesse um microprocessador de IA.
Eu já possuía havia anos uma panela elétrica supostamente “inteligente”. Podia escolher uma receita, especificar uma temperatura, programar um tempo e deixar a máquina controlar o aquecimento.
Útil? Sem dúvida.
Inteligência artificial?
Não necessariamente.
Grande parte do que os fabricantes de eletrônicos de consumo chamam de “inteligente” é simplesmente automação: sensores, regras programadas, sistemas de realimentação, microcontroladores e software executando operações predeterminadas.
E não há absolutamente nada de errado nisso. A automação é uma das grandes conquistas da engenharia.
Mas automação não se transforma automaticamente em inteligência.
Um termostato não vira inteligência artificial porque alguém colocou Wi-Fi nele. Uma máquina de lavar não se torna senciente porque possui doze programas no painel. E uma panela de pressão não vira o HAL 9000 só porque sabe quanto tempo o feijão deve cozinhar.
Nem tudo que contém um microprocessador é IA, assim como nem tudo que usa eletricidade é um computador.
A distinção importa porque, caso contrário, a expressão inteligência artificial acaba lentamente deixando de significar qualquer coisa.
Mas havia outra possibilidade.
E se aquela absurda panela da novela fosse realmente inteligente?
Essa hipótese era muito mais interessante.
Imagine que o aparelho pudesse me reconhecer quando eu entrasse na cozinha. Ele poderia se comunicar com a geladeira e a despensa por meio da Internet das Coisas e descobrir quais ingredientes estavam disponíveis. Poderia lembrar do que eu gosto de comer, do que minha ex-mulher preferia, dos ingredientes que evitávamos e até do que havíamos comido na semana anterior.
Depois, poderia consultar informações nutricionais, examinar milhares de receitas, inventar uma nova, adaptar quantidades, sugerir substituições e controlar automaticamente todo o processo de preparo.
Se eu perguntasse:
“O que podemos fazer para o jantar?”
ela poderia responder:
“Você tem cogumelos, parmesão, arroz, creme de leite e vinho branco. Sugiro um arroz à piamontese. E, considerando o que você comeu ontem, talvez fosse melhor diminuir um pouco a manteiga.”
Nesse momento, provavelmente eu a desligaria da tomada.
Há limites para a inteligência artificial.
Especialmente quando ela começa a criticar minha dieta.
O interessante, olhando para essa ideia a partir de 2026, é que essa máquina imaginária já não parece particularmente absurda.
Combine percepção multimodal, um grande modelo de linguagem, sistemas de recomendação, memória pessoal, eletrodomésticos conectados e um agente autônomo capaz de controlar dispositivos físicos, e boa parte da minha aparentemente futurista panela inteligente torna-se tecnicamente concebível.
A ironia, portanto, é ainda melhor do que eu percebia em 2023.
A novela não estava necessariamente errada ao imaginar uma panela inteligente.
Ela estava chamando de inteligente a parte errada.
Controlar uma temperatura durante vinte minutos é automação.
Saber quais ingredientes estão disponíveis, reconhecer quem está fazendo o pedido, raciocinar sobre preferências e restrições nutricionais, criar uma nova receita, explicar a escolha e depois coordenar todo o processo físico de preparo é algo bastante diferente.
E essa distinção nos leva ao problema mais importante.
Enquanto a televisão dramatizava a inteligência artificial como um eletrodoméstico mágico, ostensivamente instalado sobre a bancada de uma cozinha, algumas das formas mais poderosas de inteligência computacional já operavam quase invisivelmente ao nosso redor.
A cena seguinte de Travessia tornou a ironia ainda melhor.
Um senhor de idade assistia a um vídeo de uma dançarina de funk no TikTok.
À primeira vista, aquilo parecia não ter absolutamente nada a ver com a discussão sobre inteligência artificial.
Na realidade, provavelmente era um exemplo de IA muito melhor do que a panela.
Por trás de uma sequência aparentemente banal de vídeos curtos existe um gigantesco sistema de recomendação tentando responder a uma pergunta surpreendentemente difícil:
O que esta pessoa específica deve assistir em seguida?
O sistema não simplesmente reproduz um vídeo escolhido em um menu. Ele observa comportamento, interações, tempo de visualização, escolhas anteriores, semelhanças entre usuários, características do conteúdo e inúmeros outros sinais para tentar prever o que fará aquela pessoa continuar assistindo.
A IA não é necessariamente o objeto que aparece na tela.
Muitas vezes, ela é o sistema invisível decidindo o que aparecerá na tela em seguida.
Essa distinção tornou-se ainda mais importante desde 2023.
A inteligência artificial funciona cada vez mais por trás de interfaces às quais mal prestamos atenção: ordenando informações, gerando recomendações, filtrando conteúdo, reconhecendo imagens, produzindo textos, analisando comportamento, traduzindo idiomas, auxiliando programadores, interpretando imagens médicas e coordenando sistemas de software cada vez mais autônomos.
A IA mais relevante, portanto, talvez não se pareça em nada com os robôs e aparelhos mágicos imaginados pela cultura popular.
Talvez ela simplesmente se pareça com a sua tela.
Ou com os resultados da sua busca.
Ou com o próximo vídeo.
Ou com a resposta que você recebe quando faz uma pergunta a uma máquina.
É por isso que o uso descuidado da palavra IA me incomoda.
Quando todo aparelho eletrônico passa a ser chamado de “inteligência artificial”, torna-se mais difícil compreender as transformações tecnológicas que realmente importam.
Nós conseguimos, simultaneamente, superestimar uma automação trivial e subestimar uma computação profundamente sofisticada.
Um temporizador de cozinha transforma-se em uma inteligência assustadora.
Um algoritmo de recomendação capaz de influenciar a atenção de centenas de milhões de pessoas vira apenas “um aplicativo”.
Isso, sim, é uma forma bastante sofisticada de ignorância artificial.
E o problema não se limita às novelas.
O jornalismo de tecnologia também sofre há muito tempo da mesma tentação. Novas tecnologias precisam ser apresentadas como milagres ou catástrofes — preferencialmente antes do intervalo comercial.
Nuance raramente dá boa audiência.
Assim, depois de assistir a Travessia, comecei a esperar pelo que parecia inevitável.
O Fantástico acabaria descobrindo o ChatGPT.
Eu já conseguia imaginar a reportagem.
Música dramática.
Uma tela de computador.
Um jornalista digitando:
“Escreva um poema para mim.”
A máquina escreve um poema.
O jornalista olha assustado.
A civilização estremece.
Em algum lugar, um professor de Humanidades começa a atualizar o Lattes.
Confesso que aguardei a inevitável reportagem com uma quantidade considerável de preconceito.
Então assisti.
E, para crédito da Globo, não foi o desastre técnico que eu esperava.
O que, convenhamos, é uma régua bastante baixa.
Havia acadêmicos e “especialistas” convidados, o que imediatamente conferia à reportagem aquela aparência confortável de seriedade. A televisão tem um curioso hábito de tratar a presença de um título acadêmico como se ele viesse acompanhado de um certificado de neutralidade intelectual.
Não vem.
Especialistas possuem pressupostos, preferências políticas, lealdades institucionais, teorias da moda e pontos cegos ideológicos exatamente como qualquer outra pessoa. E quando uma emissora seleciona repetidamente seus comentaristas dentro de um ambiente cultural e político relativamente estreito, o resultado pode parecer pluralista enquanto permanece surpreendentemente homogêneo.
O problema não é um especialista ser de esquerda, de direita, liberal, conservador ou qualquer outra coisa.
O problema começa quando proximidade ideológica é confundida com competência, consenso é fabricado pela seleção dos convidados e credenciais são apresentadas como substitutos para argumentos.
Um professor que aparece na televisão não deve ser considerado correto porque há o nome de uma universidade escrito na legenda embaixo dele.
Deve ser levado a sério quando aquilo que diz resiste à evidência, à lógica, à contestação e ao escrutínio.
Essa distinção é especialmente importante em inteligência artificial, uma área já cercada por quantidades extraordinárias de hype, medo, interesses comerciais, ansiedade política e ignorância tecnológica.
Portanto, não, não vou oferecer à Globo o pedido entusiasmado de desculpas que cheguei a considerar.
Talvez um bem pequeno.
Um pedido de desculpas em tamanho de nota de rodapé.
A reportagem foi melhor do que eu esperava, mas meu ceticismo sobreviveu perfeitamente bem.
E então veio a cena final.
O repórter olhou para a tecnologia que acabara de apresentar a milhões de espectadores e se perguntou se a inteligência artificial poderia, algum dia, tomar o seu emprego.
Essa parte, pelo menos, não exigia especialista algum.
A ironia escreveu a si mesma.
Em janeiro de 2023, aquilo ainda funcionava muito bem como piada.
Relendo essas palavras em agosto de 2026, confesso que a piada me parece um pouco menos confortável.
E talvez essa seja a verdadeira razão pela qual decidi revisitar este velho ensaio.
Há três anos, o absurdo parecia estar no fato de as pessoas enxergarem inteligência artificial em todos os lugares.
Hoje, o problema é quase o oposto.
A inteligência artificial realmente está aparecendo em quase todos os lugares — apenas, com frequência, não onde as pessoas esperam encontrá-la.
A questão importante nunca foi saber se uma panela poderia tornar-se inteligente.
Mais cedo ou mais tarde, provavelmente poderá.
A pergunta mais interessante é se nós seremos inteligentes o suficiente para reconhecer o que a inteligência artificial realmente é, o que ela não é e quando essa diferença de fato importa.
Editorial transparency note: This article, as with all articles published on this site, was conceived, directed, written, and reviewed by Prof. Maurício Veloso Brant Pinheiro. Artificial intelligence was used as an assistant for editorial refinement, formatting, image generation, SEO metadata, and publication workflow.

Copyright 2026 AI-Talks.org