Capa: A cabeça de porco coberta de moscas em “O Senhor das Moscas”,
de William Golding, é um poderoso símbolo da barbárie que emerge dos personagens na ilha deserta. Ela representa a degradação da humanidade na ausência de normas e civilização, personificando os instintos primitivos e a decadência moral dos meninos. As moscas que a cercam enfatizam a corrupção e a espiral descendente à medida que abandonam a racionalidade. Além disso, a cabeça de porco simboliza o mal presente em cada ser humano, servindo como um lembrete inquietante de que o mal reside dentro de todos nós. Do filme de 1990 “O Senhor das Moscas”.
“A talvez exista uma besta… talvez sejamos apenas nós.”
“Fizemos tudo o que os adultos fariam. O que deu errado?”
“Acredito que o homem sofre de uma ignorância terrível de sua própria natureza. Apresento minha visão na esperança de que possa ser algo próximo à verdade.”
― William Golding, Lord of the Flies ―
Maurício Veloso Brant Pinheiro
Introdução
Sempre busquei uma forma de me desligar um pouco da ciência e da técnica, que são minhas paixões primárias, mas que às vezes podem se tornar entediantes quando estamos saturados, cansados e bloqueados por falta de inspiração (é preciso ter coragem para admitir que isso ocorra em nosso meio acadêmico). Como uma válvula de escape, entre outros hobbies, mergulho na leitura de clássicos da literatura e da história. Mais recentemente, tenho me deixado envolver por clássicos da língua inglesa de meados do século passado, principalmente americanos mas também ingleses. É como se eu me entregasse às histórias, imerso nos perfis e cenários dos romances, para só depois reorganizar minhas ideias e retomar com vigor ao mundo das equações, da física atômica, do laboratório, e da literatura técnica. Esse equilíbrio realmente me faz bem e, do ponto de vista prático, funciona como um algoritmo eficiente e auto regenerativo em meu dia a dia, permitindo-me explorar humanidades e literatura enquanto meu subconsciente se prepara novamente para dar um passo adiante na ciência, na matemática e na técnica, e no ensino destas (minha função profissional primordial).
Mais especificamente, cada romance clássico a me transporta para uma nova dimensão de pensamento, onde as ideias se mesclam de maneiras inesperadas, enriquecendo tanto minha apreciação da arte literária quanto minha capacidade de análise científica, e o mais importante, me permitindo conexões que no dia-a-dia passariam por nós desapercebidas, ou seriam prontamente esquecidas, evanescentes. A sinergia entre essas duas paixões é o que impulsiona minha jornada de crescimento intelectual, incentivando-me a continuar buscando novas experiências literárias e expandindo os limites do conhecimento em minha área de atuação.
Depois de me encantar com as profundezas de “O Apanhador no Campo de Centeio“, de J.D. Salinger, e com a riqueza da mensagem de “O Sol é para Todos“, escrito por Harper Lee, senti um desejo irresistível de me aventurar em outra obra-prima literária: “O Senhor das Moscas“, de William Golding. Essa jornada pelos clássicos tem sido extremamente enriquecedora, mas também desafiadora, porque cada obra oferece uma perspectiva única e nos conduz a uma exploração profunda da natureza humana.
Compartilhar aqui minhas reflexões em forma de ensaios tem sido gratificante, e é importante mencionar a valiosa ajuda da Inteligência Artificial (IA) através de Grandes Modelos de Linguagem (LLM), como o ChatGPT, que me auxiliaram a organizar minhas ideias sobre os livros e facilitaram o processo de edição, além de me ajudar a encontrar conexões surpreendentes entre temas que parecem distintos à primeira vista.
Ao publicar esses ensaios, meu objetivo além de aprender e fixar ideias, é compartilhar com outros amantes da literatura as descobertas que venho fazendo ao explorar essas grandes obras-primas. Além disso, tenho demonstrado o poder da IA na produção de textos com qualidade e relevância, além de traçar paralelos entre os estes clássicos e a revolução tecnológica que estamos vivendo. Com o “O Senhor das Moscas“, de William Golding, um livro tão relevante em sua crítica social e reflexão sobre a natureza humana, encaro mais um desafio fascinante, e estou animado para compartilhar minhas análises e reflexões com vocês, na esperança de que nossas discussões e interações possam enriquecer ainda mais essa jornada literária conjunta.
Neste ensaio, embarcaremos em uma fascinante jornada de exploração, conectando o clássico “Lord of the Flies“, escrito por William Golding, ao desenvolvimento da Inteligência Artificial. Ao comparar a natureza humana retratada na obra com o avanço da IA, iremos analisar temas como liderança, ética, ambição por poder e o impacto social resultante. Além disso, ressaltaremos a importância vital da conexão social e da supervisão adequada (ou ausência dela), que desempenham papéis fundamentais em ambas as narrativas. Com destaque aos desafios éticos que a evolução da IA inevitavelmente traz à tona, reiteraremos a importância dessas reflexões em várias perspectivas, que nunca é demais explorar.

O Senhor das Moscas
“Lord of the Flies“, escrito por William Golding e publicado em 1954, é um verdadeiro clássico da literatura que conta a história de um grupo de crianças britânicas que ficam presas em uma ilha deserta após um acidente de avião durante uma guerra.
Sem a supervisão de adultos, as crianças enfrentam desafios para sobreviver e se organizar, mas acabam caindo em conflitos e disputas pelo poder. Essa história nos mostra os lados mais primitivos e selvagens da natureza humana, levantando questões éticas sobre o comportamento humano e os limites da civilização.
É uma obra poderosa que nos faz refletir sobre o papel da liderança, da ética e da responsabilidade em meio a adversidades cruciais e de certa forma expõe o complexo Amizade-Inimizade de Sir Arthur Keith. Em seu “A New Theory of Human Evolution” (1948) ele afirmou que os humanos evoluíram como raças, tribos e culturas diferentes, demonstrando patriotismo, moralidade, liderança e nacionalismo. Aqueles que são considerados parte do grupo interno são tolerados e protegidos; todos os outros são classificados como grupo externo e sujeitos a hostilidades:
“O código da inimizade é uma parte necessária do mecanismo da evolução. Aquele que se mostra generoso com seu inimigo… abre mão de seu lugar na turbulência da competição evolutiva.”
Estudos de caso revelam como o complexo de amizade-inimizade se manifestou em diversas situações históricas e sociais. Nos Estados Unidos, a segregação racial imposta pelas leis Jim Crow representou um “vasto experimento” que marcou dez milhões de afro-americanos, isolando-os do restante da população com uma fronteira bem definida e guardada como as fronteiras de um reino. O apartheid na África do Sul, por sua vez, refletiu a “dominação” branca enraizada na organização primitiva do cérebro humano, com a crença em uma fronteira intransponível entre os colonos brancos e as raças nativas da África e Ásia. Ainda no contexto étnico, o exemplo dos judeus na Europa demonstra como a comunidade judaica manteve uma fronteira racial, comportando-se como distintamente separada das raças dominantes, com uma forte conexão pela fé que fortalecia sua identidade.
Observa-se também o sistema de castas na Índia e o status dhimmi imposto aos não-muçulmanos sob a lei islâmica como exemplos desse complexo em diferentes contextos sociais. Outros casos mencionados por Peter Corning (cientista americano nascido em 1935) incluem os conflitos entre xiitas e sunitas, católicos e protestantes, a Guerra Civil Americana e a Primeira Guerra Mundial, todos evidenciando em sua essência, nada mais do que a influência do instinto tribal. O complexo Amizade-Inimizade é fundamental para a coesão e unidade de comunidades enquanto o contato pessoal entre seus membros é possível. No entanto, quando uma comunidade cresce além dessa capacidade, ocorrem rupturas, enxames e desintegração. Não se sabe até quando a comunicação em massa moderna permitirá que comunidades de grande escala permaneçam intactas. Algoritmos das redes sociais reforçam polarizações e inimizade entre bolhas antagônicas e já geram efeitos extremamente disruptivos em nossa sociedade que colocam até a democracia e a liberdade em cheque.
Desmond Morris, zoólogo e etólogo (e pintor surrealista) inglês (nascido em 1969), bem como um autor popular em sociobiologia humana com seu The Naked Ape: A Zoologist’s Study of the Human Animal (1967), argumenta que precisamos nos distanciar de nossos grupos e observar os conflitos humanos de maneira imparcial. Ele adverte que espécies verdadeiramente violentas tendem a se extinguir, e a agressão herdada da rivalidade entre comunidades é racionalizada por ideologias, princípios morais, filosofias sociais ou crenças religiosas. Após a Segunda Guerra Mundial, ocorreu um debate sobre o papel do instinto e do aprendizado na formação humana, e teorias prevalentes foram reformuladas para combater o racismo e o sexismo.
Steven Pinker (psicólogo e linguista canadense, nascido em 1954, e radicado em Harvard) enfatizou que os conflitos de interesse são inerentes à condição humana e que o homem e outros seres vivos seguem seus instintos conforme projetado pela evolução, mesmo que isso leve a resultados trágicos em certos aspectos. O complexo Amizade-Inimizade representa um desafio sério para a paz mundial e o governo global, podendo até levar a consequências catastróficas, como um holocausto nuclear. Haja visto o adiantamento do Doomsday Clock para 23:58:30 devido ao conflito da Ucrânia.
Robert Ardrey, introduziu em sua obra clássica “The Territorial Imperative” (1966) uma fórmula simples para o complexo de Amizade-Inimizade. Nessa teoria, Ardrey postula a existência de um componente denominado Hazzard, que representa o perigo externo a uma comunidade. Segundo a fórmula proposta por Ardrey, a coesão dos grupos sociais (representada por A, amity) é influenciada pela soma da inimizade (E, emity) com o perigo externo (h, harzard), ou seja, A = E + h. Essa ideia sugere que em situações de grande perigo ou ameaça externa (h sendo grande), os laços de amizade e cooperação entre os membros do grupo (A) tendem a se manter, visando a proteção e sobrevivência coletiva, com a queda da inimizade entre grupos internos à comunidade (E).
Essa perspectiva é particularmente relevante quando analisamos a obra “O Senhor das Moscas“, pois deparamo-nos com uma narrativa envolvendo um grupo de jovens em fase de formação, que se veem presos em uma ilha deserta após um acidente de avião. Esse cenário de isolamento e ausência de supervisão adulta cria um ambiente peculiar e desafiador, no qual os personagens se veem obrigados a forjar sua própria sociedade. Inicialmente a ilha paradisiaca, com alimentação abundante, sem adultos e com muita diversão, minimiza h. No entanto com o passar do tempo isso inevitavelmente leva a um aumento de E e da cisão da comunidade em dois grupos distintos liderados por Ralph e por Jack. A negligência em manter a fogueira de sinalização acessa, em detrimento da diversão na praia ou na caça é um dos gatilhos desta cisão.

Os personagens, jovens e ainda em formação, de cada uma das duas “tribos”, lutam para encontrar um equilíbrio entre suas tendências de cooperação e amizade (A) e a presença de crescentes ameaças externas e desafios hostis (h) como a “besta”. E enquanto o grupo de Jack se consolida (E cai), o de Jack se dissolve lentamente. O perigo representado pela crescente luta pela sobrevivência não permite que um senso de amizade e cooperação seja firmemente estabelecido e uma reintegração dos dois grupos ocorra, levando inevitavelmente à volta da barbárie pelo grupo mais forte.
Essa ausência de um A definido entre o grupo original, combinada com a inexperiência dos personagens em lidar com a complexidade social, torna a narrativa de “O Senhor das Moscas” ainda mais intensa e provocativa.
Finalmente é também interessante estender nossa reflexão para o contexto de reality shows modernos, como o “Big Brother” e o programa “Naked and Afraid” (Largados e Pelados). Esses programas de televisão oferecem uma visão fascinante da dinâmica humana quando confrontada com desafios extremos e situações de isolamento social. Assim como os personagens do livro de Golding, os participantes desses programas são retirados de seu ambiente habitual e colocados em cenários onde precisam lutar pela sobrevivência, formar alianças e enfrentar dilemas morais e éticos.
A exposição da natureza humana sob pressão, a busca por poder e a necessidade de conexão social podem ser observadas tanto em “Lord of the Flies” quanto nessas produções televisivas, trazendo à tona indagações sobre como a inteligência artificial pode desempenhar um papel em moldar tais experiências e até que ponto essa tecnologia pode influenciar o comportamento humano em situações extremas. À medida que embarcamos em um futuro cada vez mais tecnológico, é fundamental refletir sobre como garantir que a IA seja aplicada com responsabilidade, respeitando a ética e a dignidade humana, mesmo em contextos de entretenimento e reality shows que possam atrair audiências em busca de sensações extremas. A interação entre a natureza humana e as novas fronteiras da inteligência artificial nos desafia a ponderar sobre os rumos que queremos seguir como sociedade, assegurando que a tecnologia seja usada para o benefício e aprimoramento da humanidade, sem comprometer nossa essência e valores fundamentais.
E a IA?
À medida que avançamos para uma era cada vez mais digital e tecnológica, a inteligência artificial (IA) emerge como um componente crucial dessa transformação. O ritmo acelerado das pesquisas e desenvolvimentos na área resultou em algoritmos de aprendizado de máquina extremamente sofisticados, capazes de tomar decisões e aprender com grandes quantidades de dados. No entanto, essa evolução da IA não é isenta de desafios éticos e dilemas sociais relacionados à interação entre humanos e máquinas. Essas complexidades paralelam aspectos explorados no livro “Lord of the Flies”, que aborda temas profundos sobre a natureza humana, liderança, ética, ambição pelo poder e a constante evolução da tecnologia.
No enredo de “Lord of the Flies”, a história ilustra de forma contundente a dualidade inerente à natureza humana quando não há supervisão ou estruturas sociais que sirvam como guias. À medida que o enredo se desenrola, as crianças inicialmente retratadas como seres inocentes revelam seus instintos mais primitivos, resultando em conflitos e desavenças, desequilibrando a harmonia do grupo. De maneira análoga, a IA pode demonstrar comportamentos moralmente ambíguos, como viés de treinamento e filtros humanos enviesados, levantando questões éticas sobre responsabilidade e a necessidade de uma governança sólida.
Estabelecer políticas éticas para o desenvolvimento e uso da IA é uma tarefa essencial para garantir que ela contribua positivamente para a sociedade, evitando perpetuar desigualdades e prejudicar grupos minoritários. Da mesma forma, a busca pelo poder na IA nos leva a refletir sobre suas implicações éticas, especialmente quando envolve competição entre atores poderosos. Nesse sentido, é imperativo considerar a governança global como uma medida preventiva contra riscos potenciais associados à supremacia tecnológica.
Além disso, “Lord of the Flies” ressalta a importância da conexão social genuína em um mundo cada vez mais interconectado. À medida que a IA avança, é essencial equilibrar o progresso tecnológico com a preservação dos valores humanos fundamentais e dos laços sociais autênticos. Manter uma interação real e significativa entre indivíduos é vital para enfrentar os desafios externos e aproveitar as oportunidades proporcionadas pelo avanço tecnológico.
Ao analisarmos a obra literária sob essa perspectiva, podemos obter uma compreensão mais profunda da natureza humana, dos desafios éticos e das complexidades inerentes ao desenvolvimento tecnológico na era da inteligência artificial. Tomar decisões responsáveis, transparentes e justas é essencial para assegurar que a IA beneficie a todos e contribua para o bem-estar coletivo. Por meio de um diálogo aberto e colaborativo, podemos construir uma sociedade que aproveite plenamente o potencial da inteligência artificial, garantindo que essa tecnologia seja um instrumento poderoso para o avanço e o progresso da humanidade.
Mais sobre o autor: https://william-golding.co.uk/

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