Prof. Dr. Maurício Pinheiro, DF-UFMG
A política equivocada para a IA no Brasil
O Brasil, sempre na vanguarda das decisões visionárias, decidiu que é hora de conquistar o mundo da tecnologia de Inteligência Artificial. Com um investimento modesto de R$ 23 bilhões nos próximos cinco anos, nosso governo traçou um plano megalomaníaco para nos colocar no topo da corrida pela inteligência artificial. E, claro, porque não? Nada diz mais “soberania digital” do que um supercomputador bilionário que deve ser capaz de prever até o próximo episódio de novela.
Vamos começar pelo supercomputador, a estrela desse espetáculo. Uma máquina tão poderosa que faz as superpotências tremerem de inveja – ou pelo menos é isso que se espera, até ficar obsoleto no ano seguinte. Com ele, o Brasil poderá criar soluções de IA, armazenar dados e fazer cálculos numa velocidade que deixaria Einstein orgulhoso. Isso, claro, em um país onde a maioria das escolas mal ensina matemática e muito menos informática. Mas quem liga? Enquanto o supercomputador “voa” resolvendo problemas complexos, milhões de crianças continuam tentando ligar o computador na escola, desde que, é claro, o cabo de força esteja inteiro e a internet não tenha caído pela milésima vez no dia.
E o que dizer da gloriosa “nuvem soberana”? Um nome tão pomposo que poderia muito bem ser o título de uma novela das oito. Essa nuvem, desenvolvida para armazenar dados do SUS e do CadÚnico, promete ser a guardiã dos nossos mais preciosos segredos – como nossas fichas médicas e, talvez, algumas selfies mal enquadradas. Mas, afinal, soberania digital para quem? Para aquela pequena elite política que mal sabe fazer um ‘backup’ ou que desfruta do privilégio de navegar sem o medo da censura? Ou para o Estado, que, sob o pretexto de soberania, só busca ampliar seu controle sobre nossas vidas? Enquanto isso, a maioria dos brasileiros ainda luta contra o analfabetismo tecnológico e digital (são experts em curtir vídeos de dancinhas no TikTok).
Ah, e não poderíamos esquecer da ideia absolutamente brilhante de desenvolver um ChatGPT brasileiro. Afinal, quem precisa aproveitar a tecnologia já existente e amplamente testada, quando podemos reinventar a roda, não é mesmo? A proposta é criar um grande modelo de linguagem treinado com dados nacionais, capaz de compreender o português como ninguém – porque, claro, o Brasil é uma ilha linguística isolada, onde nada do que já existe no mundo serve para nós. Então, vamos investir milhões em um projeto que, com sorte, talvez um dia diga um “oi” tão bem quanto o ChatGPT original e politicamente correto. Mas, por que não? Nada como gastar fortunas para fazer o que já foi feito, só que com um jeitinho brasileiro – e esperar que, no final, ele não comece a escrever ‘salsicha’ com ‘ç’.
E as startups, essas pequenas joias de inovação que poderiam realmente fazer a diferença? Ah, elas são mencionadas, sim, mas com a importância de uma nota de rodapé em um livro de 500 páginas. Enquanto Estados Unidos e China fazem malabarismos para incentivar seus ecossistemas de startups, o Brasil parece acreditar que o futuro está em máquinas gigantes controladas por uma pequena elite para atender ao ego dos governantes. Os pequenos empreendedores, aqueles que poderiam estar na linha de frente dessa revolução digital, são deixados à própria sorte, sem qualquer tipo de apoio significativo. Talvez, se tiverem muita sorte, consigam algum espaço nessa “nuvem soberana” para armazenar seus sonhos e projetos.
Em resumo, a tão celebrada “soberania digital” da IA no Brasil parece mais uma corrida desesperada para um pódio que está cada vez mais distante. No final das contas, teremos máquinas brilhantes, nuvens monumentais, ChatGPTs nacional-socialistas e uma população que mal sabe como acessar o Google para procurar um tutorial de como usar o computador. Mas, ei, pelo menos estaremos no ‘pódio’ tecnológico – só que, infelizmente, o público (ou seja, nós) será deixado de fora, tentando entender como diabos gastaram o suado dinheiro de nossos impostos.
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Fica a dica…
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