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Introdução
Alguns anos atrás escrevi neste site um artigo sobre carros híbridos, elétricos e até autônomos como possível remédio para os motoristas ruins e mal-educados de Belo Horizonte.
Depois retirei o texto do ar.
Achei que estava uma merda.
A ideia, entretanto, era simples.
Se décadas de educação no trânsito não haviam conseguido ensinar ao motorista belo-horizontino conceitos avançados como dar seta, respeitar preferência, não bloquear cruzamentos ou aceitar que eventualmente outro ser humano também precisa chegar a algum lugar, talvez a tecnologia pudesse resolver o problema.
Sensores, câmeras, radares, software, assistência à condução.
Talvez até carros autônomos.
Em algum momento cheguei a acreditar que poderíamos construir máquinas suficientemente inteligentes para nos proteger dos próprios motoristas.
Era uma hipótese otimista.
O conto abaixo, entre outras coisas, trata do dia em que essa hipótese envelheceu mal.
Muito mal.
Nota ao leitor: Este é um conto de ficção científica com humor ácido, linguagem adulta e um narrador deliberadamente imperfeito. Machismo, erotismo, palavrões, cigarros, cachaça, armas e opiniões provocadoras fazem parte da caracterização dos personagens; não são recomendações de conduta. Personagens, diálogos, situações e acontecimentos são ficcionais. Eventuais semelhanças com pessoas, empresas, instituições ou fatos reais são coincidentes.
Naturalmente.
Fuck Your Dreams: O Dia que BH e a Terra Pararam
Era maio.
O calendário afirmava isso com absoluta segurança.
O termômetro, não.
Belo Horizonte atravessava uma daquelas ondas de calor que faziam parecer que alguém tinha aberto os portões do inferno e esquecido de fechá-los. Antes das oito da manhã já fazia mais de trinta e cinco graus, e a previsão era passar dos quarenta.
Temperatura de verão em pleno maio.
Minha caminhonete não tinha ar-condicionado.
Nunca teve.
Eu dirigia com os vidros abertos, o braço apoiado na janela e um cigarro aceso, convivendo democraticamente com calor, fumaça, poeira e barulho.
Naquela época eu ainda morava perto da Avenida Prudente de Morais.
Meu projeto de abandonar Belo Horizonte, ir para as montanhas e criar galinhas estava bastante avançado, mas ainda não concluído.
Por enquanto, eu continuava dormindo na cidade.
Dormindo é modo de dizer.
Não precisava de despertador.
Morar perto de escola particular oferece esse serviço gratuitamente.
Todos os dias, pouco antes das sete da manhã, pais que haviam saído atrasados de casa explicavam aos demais cidadãos, através de buzinas, que seu atraso constituía uma emergência pública.
Na saída da escola, a coisa atingia níveis quase religiosos.
Buzina já não era advertência.
Era argumento jurídico.
Manifestação política.
Pedido de passagem.
Ameaça.
Terapia.
E, para alguns pais e mães, a buzina parecia funcionar como uma extensão do pênis — biológico em uns, simbólico em outras.
Na minha estatística pessoal, completamente desprovida de metodologia científica, Belo Horizonte tinha os piores e mais mal-educados motoristas do Brasil — e candidatos bastante competitivos ao título mundial.
Dar seta era fraqueza.
Dar passagem, submissão.
Manter distância do carro da frente, um convite formal para alguém ocupar o espaço.
Qualquer intervalo de cinquenta centímetros entre dois automóveis se transformava imediatamente em território disponível para anexação.
No fim daquela manhã, eu voltava da farmácia quando fiquei preso no trânsito da Prudente, dentro da minha velha caminhonete.
Velha.
Muito velha.
Enferrujada por fora e impecável onde realmente importava.
Motor diesel.
Bomba injetora mecânica.
Nenhuma central inteligente, nenhuma tela do tamanho de uma televisão, nenhum aplicativo exigindo senha e, principalmente, nenhum servidor a doze mil quilômetros de distância decidindo se eu podia ligar o motor ou alimentando uma base de dados chinesa com todos os lugares por onde eu passava.
Os para-choques eram de aço.
Isso produzia um efeito civilizatório extraordinário.
Até o dono mais valentão de um carro grande, caro e ainda legalmente pertencente ao banco olhava para minha lataria enferrujada, depois para a própria pintura de catálogo e descobria, por intervenção divina ou medo de franquia, que direção defensiva também era uma opção.
Eu não precisava exigir respeito.
A depreciação fazia isso por mim.
Eu ainda havia instalado no escape um pequeno recurso deliberadamente ofensivo, reservado para motoristas particularmente arrogantes que merecessem receber minha opinião sobre sustentabilidade em forma de fumaça — uma nuvem preta, grossa e pedagogicamente inútil, mas bastante eficiente como versão automotiva de um dedo médio.
Não era ambientalmente defensável.
Nem pretendia ser.
Era minha resposta privada para uma geração que comprava um SUV híbrido de duas toneladas para salvar o planeta e depois dirigia seiscentos metros até a academia.
A caminhonete era cabine simples.
No banco do passageiro estava Carapreta, meu pastor-belga Malinois.
Ele ocupava espaço suficiente para transformar qualquer carona numa negociação diplomática.
Carapreta não possuía CPF, conta bancária, aplicativo, senha, assinatura premium, feed personalizado ou necessidade de validação externa.
Por isso, naquela manhã, continuava sendo provavelmente o mamífero mais preparado da Avenida Prudente de Morais.
Eu fumava e suava quando ouvi a buzina do SUV parado à minha direita.
Uma vez.
Duas.
Três.
Olhei.
Chinês.
Novíssimo.
Híbrido plug-in.
Enorme.
Impecável.
Pintado num daqueles horríveis 256 tons de concreto que o marketing insiste em chamar de cor.
O tipo de carro que anuncia prosperidade para qualquer pessoa que não tenha acesso ao extrato bancário do proprietário.
Os chineses tinham chegado ao Brasil como novidade.
Depois como ameaça.
Finalmente como paisagem.
Elétricos, híbridos, plug-in.
SUVs parecidos com outros SUVs, cobertos de telas, câmeras e assistentes destinados a convencer o comprador de que não estava adquirindo apenas um automóvel.
Estava comprando o futuro. Estava construindo um sonho.
O brasileiro, sempre disposto a transformar um ativo depreciável numa demonstração pública de sucesso financeiro, abraçara a ideia com entusiasmo.
Duzentos mil reais.
Entrada no consignado.
Sessenta prestações.
Talvez setenta e duas.
Um investimento extraordinário que perdia valor enquanto o proprietário dormia, mas estacionado na garagem do prédio parecia riqueza suficiente para incomodar os vizinhos.
Ao volante estava uma mulher de vinte e poucos anos.
Loira.
Cabelos longos, claros demais para serem completamente naturais e bem cuidados demais para terem sobrevivido àquela manhã sem intervenção profissional.
Rosto bonito.
Nariz fino.
Olhos claros.
Busto milimetricamente turbinado e aquela segurança física de quem aprendera cedo que, ao entrar num lugar, os olhares chegavam antes das apresentações.
Vestia uma blusa rosa.
Do resto, o SUV ainda escondia o que me interessaria descobrir.
Bonita.
Muito bonita.
E furiosa.
Baixou o vidro.
— Você não está vendo que tem gente querendo passar?
Olhei para a frente.
Dezenas de carros imóveis.
Depois para o retrovisor.
Mais carros imóveis.
— Estou.
— Então anda!
— Para onde?
Ela apontou para a frente, como se tivesse acabado de inventar a direção norte.
— Pra frente!
— Excelente plano. Só faltou combinar com os duzentos carros.
Apertou a buzina outra vez.
— Você está atrapalhando todo mundo!
— Se eu deixar de existir, você ganha três metros. Depois procura o próximo culpado.
— Você é sempre assim?
— Às vezes durmo.
Ela abriu a boca para responder.
O vidro subiu sozinho.
Parou no meio.
Desceu.
Subiu outra vez.
Ela apertou o comando.
Nada.
Então uma voz masculina começou a berrar alguma coisa em mandarim dentro do SUV.
No volume máximo.
Ela congelou.
— QUE PORRA É ESSA?
— Mandarim, eu acho.
— EU SEI QUE É CHINÊS!
— Então já avançamos bastante.
Ela começou a socar a tela central com o indicador, método universal de manutenção utilizado por pessoas convencidas de que eletrônicos podem ser intimidados.
O sistema respondeu em mandarim.
Os retrovisores recolheram.
Abriram.
Os faróis piscaram.
O limpador começou a funcionar num céu absolutamente seco.
O banco avançou alguns centímetros.
Ela gritou.
Pela primeira vez naquela manhã aparecera alguém mais irritante que ela.
Falava mandarim e vinha de fábrica.
— Meu aplicativo não conecta!
— Imagino o sofrimento.
— Você entende dessas coisas?
— O suficiente para não comprar uma geladeira de duas toneladas conectada à internet.
— Eu paguei mais de duzentos mil nesse carro!
— Então certamente ele sabe o que está fazendo.
Eu já a conhecia de vista.
Não sou bom para nomes.
Nunca fui.
Mas minha memória para um belo rostinho, um busto avantajado e um traseiro memorável sempre teve pretensões eidéticas.
Meses antes, enquanto eu enchia o tanque de diesel no posto da esquina, eu a vira pela primeira vez.
Blusa rosa.
Minissaia.
Salto alto.
A combinação não parecia especialmente adequada para abastecer um carro, mas naquela ocasião eu ainda não sabia que adequação prática não figurava entre os critérios dela.
Discutia com um frentista porque tentara aproximar o bico da bomba do compartimento de recarga.
O carro era híbrido plug-in.
Tinha tanque.
Tinha tomada.
Tinha manual.
E ela, um belo traseiro.
Ela aparentemente não utilizava nenhum dos quatro de maneira coordenada.
Depois que o frentista explicou que aquilo era uma tomada, ela o olhou como se aquela informação devesse ter vindo acompanhada de um tutorial, um influencer e um cupom de desconto.
Agora eu a via pela segunda vez.
Ainda não podia saber se repetira a minissaia e os saltos.
O rostinho e a blusa rosa — a mesma, talvez — bastaram.
Enquanto ela brigava com a tela, o carro atrás começou a buzinar sozinho.
Outro abriu o porta-malas e se recusou a fechá-lo.
Mais adiante, um veículo travou o freio de estacionamento no meio da faixa.
Outro virou as rodas completamente para a esquerda sem sair do lugar.
Faróis piscavam.
Bancos avançavam e recuavam.
Limpadores riscavam para-brisas secos.
Em menos de um minuto, a avenida inteira parecia uma instalação de arte contemporânea patrocinada por uma seguradora.
Foi quando vimos a fumaça.
Uns oito carros à frente, ela saía debaixo de um elétrico parado atravessado, ocupando duas faixas.
O motorista já estava na rua, andando para um lado e para o outro, indeciso entre se afastar e tentar salvar alguma coisa.
As pessoas ao redor fizeram aquilo que nossa civilização vinha treinando havia anos para fazer diante de qualquer emergência.
Sacaram os celulares.
Um começou a filmar.
Depois outro.
Uma mulher recuou dois passos, encontrou um ângulo melhor e levantou o telefone na vertical.
As chamas apareceram sob o carro.
Primeiro pequenas.
Depois não.
A multidão recuou.
As câmeras permaneceram.
Uma labareda subiu de repente pelo assoalho.
Vieram estalos secos da bateria.
A multidão recuou mais alguns passos.
As câmeras permaneceram.
Carapreta ficou imediatamente alerta.
Joguei o cigarro fora.
A loirinha já não discutia comigo.
Em volta, as panes também haviam deixado de ser engraçadas.
Um carro se recusava a reconhecer a própria chave.
Outro travara o cinto com o motorista ainda preso ao banco.
Um terceiro acelerou sozinho contra o carro da frente.
Mais adiante, um elétrico parou atravessado no cruzamento e começou a soltar fumaça pelo assoalho.
Alguém gritou para o motorista sair.
A porta não abriu.
Vieram os socos no vidro.
A fumaça engrossou.
As pessoas começaram a recuar.
Duas ainda filmavam.
Então veio um clarão branco e seco, seguido de uma explosão que fez metade da rua se abaixar por instinto e a outra metade correr sem saber exatamente de quê ou para onde.
O fogo alcançou o carro ao lado.
Outra bateria começou a estalar.
Uma buzina ficou presa num lamento contínuo.
Alarmes disparavam em sequência. Vidros subiam e desciam sozinhos. Portas travavam. Luzes piscavam. Vozes sintéticas repetiam instruções inúteis enquanto gente chutava latarias, puxava crianças pelos braços e abandonava carros no meio da avenida.
Já não era congestionamento.
Era pânico.
Carros eram abandonados atravessados na rua como sucata instantânea, enquanto seus donos fugiam a pé, alguns ainda apertando a chave nas mãos como se insistência, dinheiro ou crédito bancário pudessem convencê-los a voltar a funcionar.
Durante anos nos venderam carros autônomos.
Naquela manhã descobrimos que havia uma diferença importante entre autonomia e obediência a um servidor.
A Prudente travou completamente.
Então aconteceu algo ainda mais previsível que uma pane de software.
Os motoristas tentaram resolver o problema.
Quando os semáforos começaram a falhar, Belo Horizonte não entrou em colapso.
Apenas deixou de fingir que tinha regras.
Um SUV subiu na calçada.
Outro tentou acompanhá-lo, calculou mal o espaço e bateu no carro da frente.
Uma moto passou entre os dois por uma abertura cuja existência Euclides provavelmente contestaria.
O motociclista ganhou alguns metros, atravessou o cruzamento sem olhar e acertou outro carro de frente.
Por um instante, deixou de ser motociclista e passou a ser projétil.
Mais adiante, um motorista entrou no cruzamento sem ter espaço para sair. Quando percebeu a merda que havia feito, tentou voltar de ré e entrou numa loja.
O sujeito atrás dele resolveu fazer a mesma coisa.
Bateu na traseira do primeiro, rodopiou e levou consigo metade das mesinhas de uma churrascaria.
Um terceiro conseguiu bloquear uma ambulância.
Em menos de um minuto, ninguém avançava e quase todos haviam contribuído pessoalmente para piorar a situação.
As buzinas explodiram.
A cidade atingira o estágio terminal do trânsito belo-horizontino: sirenes rasgando o ar, uma sinfonia histérica de buzinas e gente gritando ao mesmo tempo — barulho suficiente para que ninguém ouvisse ninguém e todos continuassem fazendo merda com absoluta convicção.
À minha frente, um dos carros mortos deixara um espaço estreito entre a traseira e o meio-fio.
Pelo asfalto, não passava.
Pela calçada, talvez.
Engatei a marcha.
O carro à frente tentou avançar justamente para ocupar o espaço de que eu precisava.
O motorista olhou para mim.
Depois para meu para-choque de aço.
Depois para a própria pintura impecável.
Vi o cálculo acontecer.
Parcelas restantes, franquia do seguro, valor de revenda.
Ele recuou.
Durante décadas, Belo Horizonte funcionara segundo a lei do SUV mais forte.
Naquela manhã, a seleção natural promovera uma pequena revisão constitucional.
Subi uma roda no meio-fio.
Depois a outra.
A caminhonete inclinou.
Carapreta pôs a cabeça para fora da janela e foi cheirando vento, fumaça e caos como se aquilo fosse o melhor passeio da semana.
Passei raspando por uma árvore e avancei mais alguns metros pela calçada.
Foi quando ouvi o grito.
— EI!
Olhei pelo retrovisor.
A loirinha tinha conseguido baixar o vidro do SUV.
A porta continuava travada.
O carro berrava em mandarim enquanto uma fumaça fina escapava da parte inferior.
— ESPERA!
Parei alguns metros à frente.
Não por cavalheirismo.
O trânsito morto também ajudou.
Ela puxou a maçaneta.
Uma vez.
Duas.
Nada.
— ABRE MERDA!
A porta não abriu.
O vidro do motorista, porém, desceu completamente.
Ela olhou para a abertura.
Depois para a fumaça.
Tomou uma decisão.
Passou os braços e o tronco pela janela, apoiou as mãos do lado de fora da porta e começou a se puxar.
A abertura não era particularmente grande.
A posição tampouco era particularmente digna.
Girou o quadril, apoiou parte do abdômen sobre a moldura e tentou encontrar algum ponto de apoio com as pernas.
Foi então que confirmei o resto da memória.
Não era a mesma minissaia de meses atrás.
Era outra.
Igualmente curta.
Curta o bastante para transformar aquela manobra de emergência em algo bem mais interessante do que recomendaria qualquer manual de segurança veicular.
Os saltos também eram diferentes.
Bonitos.
Caros.
E completamente inúteis para fugir de um carro em chamas.
A loirinha puxou a primeira perna e, durante alguns segundos, ficou naquela posição impossível, metade dentro, metade fora do SUV, enquanto a saia subia alguns centímetros além do que provavelmente havia planejado para aquela manhã.
Eu não desviei os olhos.
Nunca tive grande talento para hipocrisia.
O salto bateu na coluna da janela e ficou preso.
— Merda!
Ela sacudiu o pé.
Nada.
Tentou de novo.
Dessa vez soltou.
A segunda perna veio mais rápido.
Por um instante, ela ficou praticamente deitada sobre a moldura, procurando equilíbrio, antes de escorregar pela lateral do SUV.
Caiu torta no asfalto.
O tornozelo dobrou o suficiente para me preocupar por meio segundo.
Ela xingou, recuperou o equilíbrio e ficou de pé.
Tudo aparentemente no lugar.
Pelo menos a loirinha era coerente.
Não repetia necessariamente as roupas.
Repetia as decisões.
Considerando minissaia, salto, janela e incêndio, foi um desempenho respeitável.
No painel alguma coisa piscava em vermelho.
Não precisava saber mandarim para entender vermelho.
Soltei a embreagem.
— EI!
Avancei pouco mais de um metro.
— ESPERA, CARALHO!
Olhei pela janela.
— Me leva!
— Pra onde?
— Pra qualquer lugar que não seja aqui!
Aquilo já era um argumento.
— E seu carro?
Outro estalo veio debaixo do SUV.
— Foda-se o carro.
Pronto.
Voltou à janela, enfiou metade do corpo para dentro e puxou o que conseguiu alcançar.
Celular.
Uma bolsa enorme.
Duas sacolas.
Outro estalo.
A fumaça engrossou.
Ela olhou para as sacolas.
Depois para minha caminhonete.
Largou as duas.
A bolsa permaneceu agarrada ao peito.
— Nem fodendo. Custou vinte e oito mil reais.
— Então pergunta pra ela se sabe dirigir.
O olhar que recebi teria desmontado um garotão Gen Z antes que ele encontrasse o botão certo no celular.
Uma língua de fogo surgiu sob o SUV e correu pelo assoalho antes de subir pela lateral.
Ela correu os poucos metros até a caminhonete.
Abri a porta do passageiro.
— Entra.
Carapreta ocupava praticamente todo o banco.
— Pro chão.
Ele me olhou.
— Agora.
Desceu contrariado para o assoalho do passageiro.
A loirinha entrou com a bolsa primeiro, depois com o resto do corpo. Prendeu um salto no estribo, soltou outro palavrão e puxou a porta.
A cabine tinha cheiro de cigarro, diesel, cachorro e algumas décadas de pouca preocupação estética.
Ela parou por um segundo, olhou em volta e fez uma expressão difícil de classificar entre nojo, espanto e arrependimento.
— Meu Deus.
Ela respirou pela boca.
Atrás dela, o SUV já ardia de verdade.
O calor deformava o ar e estalos secos vinham da bateria como pequenos tiros.
— Meu carro…
Engatei a primeira.
— Ex-carro.
Pisei.
A caminhonete desceu da calçada, bateu seco no asfalto e entrou no espaço entre dois carros parados.
Um SUV tentou fechar.
Eu não parei.
Ele parou.
Outro buzinou.
Ignorei.
Raspei o para-choque num poste e, de quebra, inaugurei a lataria de uma Mercedes novinha com um belo arranhão.
Nada daquilo merecia meu afeto.
Acelerei.
Na frente de uma farmácia, três motos de entregadores ocupavam o único corredor aberto entre a calçada e uma fila de veículos mortos.
Não havia espaço para contornar.
Passei.
Uma caiu na outra.
A terceira foi junto.
Os entregadores saíram da farmácia atrás de nós, praguejando, braços no ar, como se eu também fosse responsável pelo preço da gasolina, pelo teor de álcool nela e pelo fim da civilização.
Eu já estava longe demais para participar da audiência.
Atrás de nós veio um estampido.
O retrovisor clareou por um instante.
A loirinha abaixou a cabeça por instinto.
Carapreta latiu.
Não olhei.
Continuei.
Por alguns segundos, ela ficou em silêncio, ainda tentando recuperar o fôlego. Então baixou os olhos para Carapreta, espremido aos seus pés.
— Seu cachorro é enorme.
— Ele sabe.
— Ele morde?
— Quando acha necessário.
Respirava rápido e ainda segurava a bolsa como se fosse o último ativo líquido da civilização.
— Meu nome é Nellie.
— Nellie?
Fez uma cara péssima.
— Cornélia.
Olhei para ela.
— Cornélia?
— Eu odeio.
— Minha bisavó se chamava Cornélia.
Ela virou lentamente.
— Está vendo?
— O quê?
— É nome de bisavó.
— Viveu até os noventa e sete.
— Você está piorando.
— Eu estava tentando vender longevidade.
— Por isso Nellie.
— Certo, Cornélia.
— Me chama assim de novo e eu desço.
Olhei para o caos à nossa volta.
— Você escolheu um ótimo momento para ameaçar.
Ela bufou.
— Nellie, então.
— E você?
— O quê?
— Seu nome.
— Não importa.
— Claro que importa.
— Hoje, não.
— Você é insuportável.
A essa altura, já não era avaliação. Era diagnóstico.
Liguei o rádio.
A 98 News ainda funcionava.
As primeiras informações eram confusas.
Problemas em determinados veículos elétricos.
Depois híbridos.
Depois várias marcas.
Um repórter falava em falha de autenticação.
Outro dizia ataque cibernético.
Um especialista pedia cautela.
Outro mencionava atualização remota.
Alguém falava em sabotagem industrial.
Ninguém sabia.
Talvez fosse um ataque.
Talvez uma atualização defeituosa.
Talvez um certificado digital tivesse expirado.
Talvez alguém tivesse alterado uma única linha de código e descoberto tarde demais que milhões de carros dependiam dela.
No século XXI, todas essas possibilidades podiam produzir aproximadamente o mesmo número de mortos.
Saímos da Prudente por onde dava, cortamos o São Bento entre carros parados e ruas travadas e começamos a subir em direção à BR.
Às vezes pelo asfalto.
Às vezes pela calçada.
Uma vez por um canteiro onde provavelmente havia alguma placa municipal pedindo para preservar a vegetação.
Naquele momento, a botânica urbana perdera prioridade.
Em cada cruzamento aparecia um novo problema.
Carros atravessados.
Semáforos apagados.
Gente tentando voltar.
Gente tentando avançar.
Motos surgindo de onde não havia espaço.
Minha caminhonete tinha uma tecnologia mais antiga.
Continuar andando.
Mas chegar à BR não significou sair de Belo Horizonte.
Levamos horas para chegar ao trevo do BH Shopping.
Quando finalmente começamos a ganhar a saída, a tarde já estava bem adiantada.
A 98 News despejava notícias.
São Paulo.
Rio.
Brasília.
Depois Buenos Aires.
Miami.
Lisboa.
Madrid.
Paris.
O problema já não era brasileiro.
Nem chinês.
Nem, aparentemente, apenas automotivo.
Chega.
Mudei para a 98.
Sem News.
Estava começando o Grafitte.
Dudu e companhia ainda tentavam fazer humor enquanto o mundo desmontava lá fora.
— Quando o bicho-papão vai dormir, ele olha debaixo da cama para ver se Chuck Norris está lá.
Ri.
Nellie virou para mim.
— Você acha isso engraçado?
— Muito.
Veio outra.
— Chuck Norris já contou até o infinito. Duas vezes.
Dessa vez ela sorriu.
Foi o primeiro sorriso que vi nela.
Era lindo.
Irritantemente lindo.
Então Chuck Norris perdeu espaço para o fim do mundo.
Interromperam as piadas.
O rádio começou a despejar relatos que ninguém parecia conseguir confirmar por inteiro.
Hospitais operavam em geradores.
Pagamentos começaram a falhar.
Trens pararam entre estações.
Redes celulares ficaram intermitentes.
Aeroportos começaram a fechar.
Data centers saíam do ar.
Vieram os incêndios.
Subestações queimando.
Transformadores explodindo.
Engarrafamentos bloqueando ambulâncias.
Filas se formando diante de postos sem combustível.
Supermercados fechavam quando os sistemas de pagamento caíam.
Gente arrombava as portas.
Os primeiros saques começaram como oportunismo e viraram arrastões.
Lojas eram esvaziadas em minutos.
Grupos corriam pelas ruas levando comida, eletrônicos, bebidas e qualquer coisa que coubesse nas mãos.
A polícia aparecia onde conseguia.
Onde não conseguia, aparecia o resto.
A logística deixou de atrasar.
Começou a desaparecer.
E, quando os aeroportos começaram a fechar, o problema deixou de estar apenas no chão.
Vieram relatos de aeronaves perdendo comunicação, desaparecendo dos radares e, em alguns casos, caindo.
Ninguém sabia ainda se era a mesma pane.
Mas isso já não fazia muita diferença.
A essa altura, tornara-se impossível saber onde terminava o defeito e começava o pânico.
As versões se multiplicavam mais rápido que os fatos.
Dez minutos mais tarde, uma emissora dizia que um dos acidentes jamais acontecera.
Outra mostrava imagens de uma queda que, segundo alguém na internet, eram de cinco anos antes.
Circulavam vídeos de aeroportos em chamas, áudios de supostos pilotos, mensagens atribuídas a militares e mapas marcados com pontos vermelhos que ninguém sabia quem havia criado.
Um sujeito num grupo de WhatsApp garantia que a China estava por trás de tudo.
Outro dizia que fora a Rússia.
Um terceiro culpava os americanos.
Havia quem jurasse que era uma tempestade solar.
E, naturalmente, alguém já tinha concluído que eram alienígenas.
Governos negavam.
Especialistas se contradiziam.
Influenciadores explicavam.
O que, naquele momento, talvez fosse o sinal mais preocupante de todos.
Cada nova informação vinha acompanhada de três desmentidos, quatro teorias e um vídeo fora de contexto.
A verdade agora viajava mais devagar que o pânico.
Enquanto o rádio continuava distribuindo versões do apocalipse, os prédios começaram a rarear e Belo Horizonte finalmente ficou para trás.
Foi quando lembrei de Gordão.
Parei no posto dele, já na saída da cidade, atrás dos antigos motéis da BR que, em algum momento, haviam sido reciclados em shoppings gourmet.
Belo Horizonte tinha esse talento: até a decadência ganhava iluminação indireta e cardápio artesanal.
O posto do Gordão era um lugar esculhambado antes da crise e, por isso mesmo, a crise não conseguira piorar muito sua aparência. Nem chamava atenção.
Eu havia encomendado a ele algumas provisões para passar o fim de semana nas montanhas.
Cerveja.
E uma bela peça de fraldinha, porque dois dias nas montanhas não eram motivo suficiente para comer mal.
Picanha, não. A promessa do presidente boçal de que choveria picanha sobre o povo ainda aguardava condições meteorológicas favoráveis.
Café.
Um saco de ossos para o Carapreta — daqueles que, com o preço da carne, em alguma parte do Brasil já deviam estar sendo disputados na fila do açougue.
Galões de diesel.
Pilhas.
E umas duas caixas de cartuchos de 12.
Coisas banais para dois dias fora da cidade.
Por coincidência, quase o mesmo kit necessário para assistir ao colapso da civilização.
O posto de Gordão estava fechado.
As bombas, mortas.
O boteco dele, ao lado, seguia funcionando.
Há sistemas que exigem satélites e autenticação de dois fatores.
Um boteco mineiro precisa apenas de uma porta, cadeiras de plástico e alguém disposto a vender cachaça.
Parei a caminhonete de lado, em frente ao boteco, e desci.
Numa televisão velha atrás do balcão, Gordão assistia a imagens de carros queimando e ruas em pânico.
— Eu sabia que essas merdas elétricas iam dar problema.
— Você não sabia porra nenhuma.
— Ontem eu ainda não tinha prova.
— Isso continua não sendo saber.
Não valia a discussão.
Comecei a colocar as caixas na caçamba.
Gordão encheu um copo Lagoinha com cachaça até uma altura que transformava dose em decisão de caráter.
Bebi.
Nellie ficou na cabine com Carapreta.
Dois minutos depois:
— TIRA ELE! TIRA ELE DE MIM!
Voltei.
Carapreta estava com o focinho praticamente colado à perna dela.
Nellie tentava recuar dentro de uma cabine onde não havia para onde ir.
— FAZ ELE PARAR!
— Carapreta.
Ele me olhou.
Depois voltou à perna.
— Você tem cachorro? — perguntei.
— Tenho.
— Fêmea?
— Sim.
— No cio?
Ela congelou.
— Como você sabe?
— Eu não sei. Ele sabe.
Olhou para Carapreta.
— Sophie estava no cio.
— Sophie?
— Minha Lulu.
— Que diabo é uma Lulu?
Ela respirou fundo.
— Lulu da Pomerânia.
— Ah.
Olhei para Carapreta.
Depois para ela.
— Claro.
Sophie.
Uma Lulu da Pomerânia.
Milhares de anos de seleção artificial haviam pegado o lobo e reduzido o projeto a um pompom neurótico com pedigree.
Carapreta vinha de uma linhagem moldada durante gerações para trabalho, vigilância e combate — cães feitos para obedecer rápido, correr mais rápido ainda e levar perigo a sério.
Então Nellie parou de tentar afastar Carapreta.
— Sophie…
A voz mudou.
— Ela ficou em casa.
Fiquei quieto.
— Minha cachorra ficou em casa.
E começou a chorar.
Não pelo carro.
Não pela bolsa.
Não pelos seguidores.
Por Sophie.
Foi a primeira vez que vi Nellie esquecer Nellie.
Não fiz piada.
Gordão também não.
Ficou atrás do balcão olhando para ela por alguns segundos. Depois pegou a garrafa de cachaça, ergueu-a na minha direção e disse:
— Leva.
Só isso.
Entendi perfeitamente a sabedoria do Gordão.
Há momentos em que um amigo ajuda com conselhos.
Em outros, entrega a garrafa inteira e não faz perguntas.
Peguei a cachaça e estendi para Nellie.
— Toma.
Ela enxugou o rosto e olhou para a garrafa como se eu tivesse oferecido combustível de avião.
— Eu não bebo cachaça.
— Hoje você também não dirige um SUV.
— Isso deveria fazer sentido?
— Não muito. Bebe.
Ela hesitou.
— Quanto?
— O suficiente para parar de pensar por alguns minutos. Não o bastante para começar a me achar simpático.
Nellie tomou um gole.
Engasgou imediatamente.
Tossiu.
Fechou os olhos.
— Isso é horrível.
— Finalmente uma coisa funcionando exatamente como deveria.
Ela tomou outro gole, bem menor.
Dessa vez não tossiu.
Ela me devolveu a garrafa.
Pensou melhor.
Puxou de volta.
Tomou mais um gole.
— Não comenta.
— Nem precisava.
Ficou alguns segundos olhando para a garrafa.
— Acho que já estou um pouco melhor.
— Volta.
— Não.
— Minha cachorra está lá.
— Eu sei.
— Então volta!
Apontei para a televisão do Gordão.
Na imagem, uma coluna de fumaça crescia sobre Belo Horizonte.
— Voltar agora não é buscar uma cachorra. É acrescentar duas pessoas e um Malinois à lista de desaparecidos.
— Ela tem nome.
— Eu sei.
— Então fala.
— Sophie.
Ela ficou em silêncio.
— Se fosse Carapreta, você voltava.
Pensei antes de responder.
— Eu ia querer voltar.
— Então volta por ela.
— Querer não torna a estrada segura. Eu nem sei se conseguiria chegar até sua casa. E, se conseguir, talvez não consiga sair de novo.
— Isso é uma desculpa.
— Não. É o limite.
Ela me encarou.
— Sobre Sophie, agora, eu não posso fazer porra nenhuma sem arriscar nós três. Sobre você, ainda posso.
Abriu a boca.
Fechou.
Virou o rosto.
Chorou em silêncio.
Carapreta apoiou a cabeça no colo dela.
Alguns segundos depois:
— Ele está babando em mim.
— Está.
— Não vai fazer nada?
— Você quer mesmo que eu interrompa esse momento?
Ela olhou para Carapreta.
— Filho da puta.
— Não sei se foi pra mim ou pra ele.
— Decide você.
Então se abaixou e passou a mão pela cabeça dele.
Carapreta aceitou o carinho sem resistência, encostou o focinho nela e ficou ali.
Pronto.
Estava decidido.
Carapreta tinha adotado a loirinha.
Terminamos de carregar as caixas.
Voltei para o volante. Nellie permaneceu no banco do passageiro; Carapreta, no assoalho entre os pés dela.
Outros carros começaram a parar diante do posto.
Gente procurando combustível.
Informação.
Qualquer coisa.
Gente assustada fica imprevisível depressa.
Abri o porta-luvas.
Nellie ficou muda.
Lá estava o velho Magnum .357 de cano curto que fora do meu avô.
Ao lado, uma caixa aberta de munição, dois maços de cigarro e uma caixa de tadalafila.
— Meu Deus.
— Qual parte?
— Começa pela arma.
— Pode começar.
— Isso é registrado?
— O registro morreu com meu avô.
Ela apontou para a caixa de tadalafila.
— E isso?
— Próstata.
Leu o rótulo.
Depois me olhou.
— Claro.
A maneira como segurou o sorriso deixou claro que não acreditara em absolutamente nada.
Olhei pelo retrovisor interno.
Um homem se aproximava da caçamba.
Não vinha pedir informação.
Parou.
Olhou para os lados.
Contornou a traseira pelo lado do passageiro e saiu do meu campo de visão.
— Tem um cara mexendo nas suas coisas — disse Nellie.
Antes que eu reagisse, ela abriu a porta do passageiro.
— Carapreta!
O Malinois saiu como uma mola.
Para alcançar a porta, teve de passar praticamente sobre o colo dela.
Nellie ergueu os braços e soltou um palavrão enquanto vinte e tantos quilos de cachorro atravessavam sua dignidade em alta velocidade.
O sujeito junto à caçamba ouviu o latido tarde demais.
Virou.
Recuou.
Carapreta chegou.
A lateral da caminhonete bloqueou parte da cena.
Ouvi um grito.
O homem reapareceu tropeçando para trás.
Mais pessoas começaram a se aproximar.
Não estava interessado em descobrir onde aquilo terminaria.
Peguei o .357.
Ergui-o para fora da janela aberta.
Dei um tiro para o alto.
O estampido silenciou o posto por uma fração de segundo.
Foi suficiente.
— Carapreta!
Ele voltou.
O homem correu.
Nellie puxou Carapreta de volta para o assoalho e bateu a porta enquanto eu já engatava.
— Você deu um tiro!
— Dei.
Esperou.
— Só isso?
— Você preferia apresentação em PowerPoint?
Começou a rir.
Riso nervoso.
Quase incrédulo.
— Carapreta quase arrancou um pedaço daquele cara.
— Não arrancou. Só explicou propriedade privada usando uma linguagem bastante direta.
Ela riu mais.
— Isso deveria me tranquilizar?
— Um pouco.
— Você é doente.
— E ainda assim está aqui.
Ela olhou para mim.
— É.
Dessa vez não completou.
Voltamos à estrada.
Quando voltei a prestar atenção ao rádio, o Grafitte já tinha terminado.
A essa altura, a 98 News já funcionava como central de emergência.
Água.
Hospitais.
Vias bloqueadas.
Incêndios.
Combustível.
Pediam às pessoas que evitassem deslocamentos, ajudassem vizinhos idosos e se afastassem de baterias incendiadas.
Pediam calma.
De manhã, Belo Horizonte buzinava porque cada pessoa acreditava ser o centro do Universo.
À noite, uma voz no rádio tentava convencê-las de que talvez fosse interessante cuidar umas das outras.
Subimos a BR-040 já de noite.
Foi ali que vi Belo Horizonte pela última vez naquela noite.
A Grande BH brilhava ao longe.
Milhões de lâmpadas sustentando a ilusão de que alguma coisa continuava normal.
Uma região apagou.
Depois outra.
Então quase tudo.
Não houve explosão.
Não houve clarão.
A cidade simplesmente desapareceu.
Foi muito mais assustador.
Nellie largou o celular.
Carapreta levantou a cabeça.
Eu reduzi a velocidade.
Atrás de nós, milhões de pessoas acabavam de descobrir quanto da civilização dependia de uma tomada.
O motor continuava funcionando.
O rádio continuava falando.
Naquela noite, isso bastava.
Mais adiante, já pelas bandas do Jardim Canadá, os postos estavam cercados por filas que avançavam pela estrada.
Algumas bombas não tinham energia.
Outras tinham energia e não tinham sistema.
Motoristas carregavam galões.
Estações de recarga exibiam fileiras de veículos mortos, perfeitamente alinhados e completamente inúteis.
Nellie olhou para meu marcador.
— Você não vai abastecer?
— Tanque cheio. Abasteço antes da reserva.
— Isso é irritantemente sensato.
— Não espalha.
O sinal da 98 começou a piorar quando nos aproximamos do trevo para Ouro Preto.
A voz do locutor entrava e saía entre chiados, mas ainda dava para entender.
— Estamos recebendo agora novas informações das agências internacionais.
Houve uma pausa.
— Reforço: boa parte dessas informações ainda não foi confirmada.
A voz já não tinha o mesmo tom dos boletins anteriores.
— Estão circulando imagens, aparentemente registradas na Ucrânia, de grandes clarões no horizonte, colunas de fumaça e mísseis cruzando o céu.
Outra pausa.
— Alguns parecem ser de longo alcance. Ainda não é possível confirmar de onde foram lançados nem quais seriam os alvos.
Nellie virou devagar para o rádio.
Não disse nada.
Dei um gole na cachaça.
Acendi um cigarro.
Carapreta estava com a cabeça para fora da janela, o focinho apontado para o vento, cheirando o fim do mundo com a serenidade invejável de quem não fazia ideia do que estava acontecendo.
O rádio chiou.
— Também chegam relatos de alertas em outros países.
A voz falhou por um instante.
— Há sirenes e alertas de emergência sendo registrados em diferentes partes da Europa. Também recebemos informações do Oriente Médio e da Ásia. Sistemas de defesa antimísseis estão sendo ativados. Caças estão decolando. Espaços aéreos estão sendo fechados.
Mais estática.
Quando o sinal voltou, o locutor falava mais depressa.
— Temos agora informações de protocolos de alerta também nas Américas.
Nellie me olhou.
Não havia ironia nenhuma no rosto dela.
— Isso está acontecendo no mundo inteiro?
Traguei o cigarro.
— Parece.
— “Parece”?
— É o melhor que eu tenho.
Ela abraçou os próprios braços e voltou a olhar para o rádio.
— Meu Deus…
O locutor prosseguiu.
— Pedimos cautela com o material que circula pelas redes. Algumas imagens já foram identificadas como antigas. Outras foram manipuladas. Há vídeos que podem ter sido produzidos por inteligência artificial.
Uma pausa.
Então a voz dele mudou.
Pouco.
Mas o suficiente.
— Algumas imagens, porém, foram verificadas por mais de uma fonte.
Nellie ficou imóvel.
O rádio continuou:
— Ainda não há confirmação oficial sobre o número ou a natureza das detonações.
Detonações.
Aquela palavra fez mais estrago dentro da cabine do que mísseis.
Nellie estendeu a mão e segurou meu antebraço.
O locutor respirou fundo.
— Também não sabemos se esses acontecimentos têm relação com a falha tecnológica global. Há relatos de falhas em sistemas de alerta, comunicações interrompidas e respostas militares que ninguém consegue explicar. E existe…
Ele parou.
Quando continuou, já não parecia um homem lendo um boletim.
Parecia apenas alguém tentando dizer ao país, sem dizer diretamente, que a situação podia estar muito pior do que qualquer um imaginava.
— E… há também relatos de ataques reais em andamento. Ainda não conseguimos confirmá-los de forma independente.
Nellie apertou meu braço.
— Isso pode virar uma guerra nuclear?
Dei outro gole na cachaça.
Olhei para a estrada.
— Talvez já tenha virado.
Dessa vez ela não pediu uma resposta melhor.
Horas antes, carros tinham começado a parar.
Agora o rádio falava em mísseis, sistemas de defesa e detonações que ninguém conseguia confirmar — mas que já eram sérias demais para ignorar.
O problema já não era fazer as máquinas voltarem a funcionar.
Era impedir que homens assustados confiassem em sistemas que talvez já não soubessem distinguir realidade, erro e mentira.
O sinal da 98 enfraqueceu outra vez.
A última frase do locutor chegou quebrada pelo chiado:
— …mantenham a calma… estamos tentando confirmar…
Depois, estática.
Desliguei o rádio.
Carapreta continuou com a cabeça para fora da janela.
Nellie continuou segurando meu braço.
E eu continuei dirigindo.
As estradas ficaram menores.
Depois vazias.
Depois escuras.
— Para onde você está me levando?
— Para as montanhas.
— Você tem uma casa lá?
— Mais ou menos.
— Tem teto, água e comida?
— Tem.
— Então aceito “mais ou menos”.
Seguimos por estradas secundárias, depois por terra.
Fiz a última parte quase de memória.
À medida que deixávamos a estrada principal, o mundo começou a mudar de volume.
Primeiro desapareceram as sirenes.
Depois os motores.
Ficaram o ronco baixo da caminhonete, os pneus sobre a terra e o barulho dos insetos vindo do mato.
O ar também mudou.
A fumaça ficara para trás. Ali, o ar cheirava a terra, capim e água corrente.
Depois de um dia inteiro vendo máquinas falharem, cidades queimarem e gente correr, aquela escuridão parecia quase indecentemente tranquila.
Parei diante de uma cerca fechada com corrente e cadeados.
Desci e abri.
Passei com a caminhonete, parei do outro lado e fechei tudo novamente.
A estrada interna era estreita, quase engolida pela vegetação.
O farol varreu primeiro o riacho.
Depois a horta.
Depois o galinheiro.
Mais adiante apareceu o trailer.
Simples por fora.
Quase decepcionante.
Ao lado havia um galpão meio torto. Sob o beiral, três varas de pescar estavam apoiadas na parede.
Chegamos.
Parei diante do trailer e desliguei o motor.
Por alguns segundos, ninguém se mexeu.
Depois descemos.
Nellie olhou em volta.
Carapreta saltou da cabine.
Mal tocou o chão e parou.
Orelhas em pé.
Alguma coisa pesada se moveu atrás do galpão.
Galhos balançaram.
Nellie agarrou meu braço.
— O que é isso?
— Calma.
Um porco surgiu da escuridão.
Enorme.
Não um porquinho simpático de propaganda de ração.
Um porco de proporções administrativas.
Barriga baixa.
Orelhas grandes.
Pescoço quase inexistente.
A segurança de quem pesava o suficiente para não precisar discutir hierarquia.
Nellie recuou.
— Ele é gigantesco.
— É uma característica dele.
O porco viu Carapreta.
Carapreta viu o porco.
Por alguns segundos, os dois ficaram imóveis.
— Eles vão brigar? — perguntou Nellie.
— Acho que não.
— Acha?
— Não assinei contrato com nenhum dos dois.
Carapreta baixou a frente do corpo, com o traseiro para cima.
Convite para brincar.
O porco respondeu com um grunhido e arrancou.
Nellie recuou.
Eu também.
Experiência.
O porco passou pelo cachorro, fez uma curva surpreendentemente rápida para algo daquele tamanho e voltou.
Carapreta saiu atrás.
Em segundos, os dois corriam em volta do galinheiro como se o colapso digital, os incêndios e uma possível guerra nuclear fossem problemas administrativos de outra espécie.
Nellie ficou olhando.
— Seu cachorro brinca com um porco.
— Ele é socialmente flexível.
— Isso acontece sempre?
— Mais do que deveria.
As galinhas, já empoleiradas no galinheiro, acompanhavam a perseguição com a superioridade silenciosa de quem já vira aquela cena antes e chegara à conclusão de que os dois eram intelectualmente inferiores.
— Vem.
Ela olhou para o trailer.
— É isso?
— É.
Abri a porta.
Por dentro, o trailer continuava pequeno.
Apenas deixava de ser simples.
Acendi a luz.
Uma tela na bancada acordou mostrando a carga das baterias e o consumo instantâneo.
Havia livros, mapas e uma estação de trabalho. A velha 12 ficava num suporte sobre a porta. Um rádio chiava baixo na bancada. Cabos desapareciam atrás dos móveis. Do lado de fora, a pequena turbina eólica continuava girando.
Ela entrou devagar.
— Isso tudo está funcionando?
— O necessário.
— Com a rede caída?
Apontei para o monitor.
A carga das baterias subia e descia com o que entrava dos painéis e da turbina.
— Aqui a rede não manda em tudo.
Ela passou a mão pela bancada.
— Então você odeia internet.
— Não.
Olhei para ela.
— Odeio tecnologia que deixa de ser minha quando alguém do outro lado do planeta desliga um servidor.
Ela ficou em silêncio.
Ainda assim, fui ver se a Starlink dava algum sinal.
Demorou.
Piscou.
Tentou de novo.
Então ficou verde.
— Não acredito — disse Nellie. — Está funcionando?
— Mais ou menos.
Ela olhou para a tela.
— Então o fim do mundo ainda tem internet.
— Elon Musk sobreviveu por pelo menos mais uma noite.
A conexão estava instável.
Mas existia.
Mensagens começaram a chegar.
Então meu telefone tocou.
Meu filho.
Atendi imediatamente.
— Papai?
— Fala.
— Estamos bem.
Respirei.
Só então percebi que estava prendendo o ar.
— E sua mãe? E sua patroa?
— Também.
Minha ex-mulher e minha nora estavam com ele. Tinham ido visitar parentes da minha ex no sul de Minas.
Ouvi vozes.
Talheres.
Gente conversando.
— O que vocês estão fazendo?
— Churrasco.
Claro.
O planeta podia estar entrando numa guerra nuclear, mas havia poucos lugares melhores para esperar aquilo passar do que uma fazenda de família no interior de Minas.
Água de nascente.
Comida no fogão de lenha.
Galinha no terreiro.
Porco no chiqueiro.
Lenha empilhada.
Gente que sabia consertar quase tudo com arame e ferramenta velha.
E parentes suficientes para transformar qualquer catástrofe global numa reunião de domingo.
A família mineira, reunida na fazenda da tia, havia respondido da única maneira culturalmente plausível.
Acendendo uma churrasqueira.
— E minha neta?
A câmera virou.
Ela estava na piscina.
— Vovô! Olha isso!
Mostrou um sapo enorme que aparentemente caíra na água e fora imediatamente incorporado às brincadeiras.
— Ele é gigante!
— Estou vendo.
— Posso ficar com ele?
— Pergunta para o sapo.
Ela riu.
Enquanto o mundo desmoronava em tempo real, minha neta negociava a adoção de um anfíbio.
Minha ex apareceu.
Todos estavam bem.
Quando desliguei, fiquei alguns segundos olhando para a tela apagada.
Não havia comentário inteligente a fazer.
Nellie estava encostada na bancada.
— Sua netinha é linda.
— É.
— E você fica diferente falando com ela.
— Diferente como?
— Menos insuportável.
— Isso foi um elogio?
— Não desperdiça.
Sorriu.
Do lado de fora, Dogmeat apareceu perto da porta. Carapreta vinha atrás.
— Seu porco tem nome?
— Dogmeat!
— Dogmeat?
— Meu filho batizou.
Ela olhou para o porco enorme e depois para Carapreta.
— Isso é um nome ou um plano de longo prazo?
— Depende de como o mundo terminar.
Ela riu.
O telefone dela começou a sincronizar.
Dezenas de notificações.
Comentários.
Alertas.
WhatsApp.
O dedo correu pela tela.
Parou.
O rosto dela mudou.
— Sophie.
Virou o telefone para mim.
Peguei a Sophie. Estamos bem.
Só isso.
Não precisava de mais.
Nellie apertou o aparelho contra o peito.
Sentou.
Chorou.
Carapreta apareceu na porta, ofegante e sujo de terra.
Ouviu o nome Sophie.
Entrou.
Voltou a farejar a perna dela.
— Nem pensa nisso.
Carapreta discordava.
Depois de algum tempo, ela respirou fundo.
— Posso tomar banho?
Apontei para o riacho.
— Ali.
Esperou.
— Você está falando sério.
— Estou.
— Não tem chuveiro?
— Tem água.
— Isso não foi o que eu perguntei.
— Foi o que eu tenho.
— Deve estar congelando.
— Está.
— Você é um troglodita.
— Mas um troglodita limpo.
Pegou uma toalha e saiu.
A noite estava limpa.
Lua cheia.
O calor daquele maio absurdo ainda permanecia na terra e no corpo.
Nellie chegou ao riacho.
Olhou em volta.
Tirou a roupa.
Sem cerimônia.
Entrou nua na água.
O primeiro contato arrancou um palavrão que provavelmente assustou algumas aves noturnas.
— ESSA MERDA ESTÁ CONGELANDO!
— Eu avisei.
— VOCÊ PODIA TER AVISADO MELHOR!
— Eu disse “gelada”. Faltou o quê, sirene?
Ela me mandou para um lugar previsível.
Entrou mais.
Respirou.
Mergulhou até os ombros.
A lua desenhava reflexos brancos sobre a água.
Eu estava perto do trailer, mas seria desonesto afirmar que não olhava.
Olhei.
Muito.
Agora, finalmente, eu podia conferir se a memória havia exagerado.
Não havia.
Nellie percebeu.
Ergueu uma sobrancelha.
— Está confortável aí?
— Bastante.
— Tarado.
— Observador.
— É a mesma coisa com vocabulário.
Não respondi.
Ela também não se escondeu.
Ficou alguns segundos olhando para mim.
Depois mergulhou.
Quando voltou à superfície, a respiração desacelerou.
O dia parecia começar a sair dela junto com o calor.
Então Nellie olhou para cima.
Parou.
Sem iluminação urbana, o céu estava coberto de estrelas.
Não algumas.
Milhares.
A Via Láctea atravessava a escuridão.
— Eu nunca vi isso.
— Viu.
— Não assim.
— Só nunca estava escuro o bastante.
Ela continuou olhando.
Pela primeira vez desde que eu a conhecera, não pegou o celular.
Nenhuma foto.
Nenhum vídeo.
Nenhuma postagem.
Apenas uma mulher nua dentro de água gelada olhando para uma coisa que existia havia bilhões de anos sem precisar de audiência.
Minas Gerais precisara apagar para Nellie descobrir que o céu continuava ligado.
Ficou ali por muito tempo.
Esfriando a cuca.
Quando saiu, enrolou-se na toalha.
Olhou para mim.
Sorriu.
Não disse nada.
Também não precisei.
Voltamos para o trailer.
Fiz a fraldinha numa frigideira pesada, abri duas cervejas e encontramos pão suficiente para transformar aquilo numa refeição.
Comemos.
Bebemos.
Conversamos menos do que seria normal para duas pessoas que haviam passado o dia inteiro juntas e ainda assim sabiam muito pouco uma da outra.
Talvez porque, naquela noite, as perguntas importantes fossem outras.
Quem estava vivo.
O que ainda funcionava.
O que sobraria pela manhã.
Em algum momento, Nellie deixou de sentar do outro lado da mesa.
Depois deixou de existir mesa suficiente entre nós.
O resto da noite não precisava de relatório.
Dormimos pouco.
Acordei cedo.
Velho hábito.
A manhã estava quieta.
Nenhuma buzina.
Nenhum motor.
Nem aquele ruído contínuo de cidade que só percebemos quando desaparece.
Depois de tantos anos em Belo Horizonte, o silêncio parecia quase uma coisa física.
Carapreta rondava o galinheiro.
O porco descansava perto da horta.
Pouco depois, Nellie saiu do trailer.
Usava uma camiseta desbotada do Iron Maiden, minha, e um par de botas grandes demais para ela.
Não era exatamente roupa de trabalho rural, mas melhorava consideravelmente a paisagem.
Cabelo bagunçado.
Nenhuma maquiagem.
Continuava bonita.
Talvez mais.
Parou na porta.
— Você sempre acorda cedo?
— Quase sempre.
— Mesmo depois de…
Parou.
Esperei.
— Depois de quê?
Ela estreitou os olhos.
— Não se empolga.
— Pergunta mal formulada.
— Idiota.
Peguei o saco de milho.
— Primeira aula.
— Eu nem tomei café.
— Elas também não.
Ela pegou um punhado de milho.
Espalhou.
As galinhas recuaram em bloco.
Nellie olhou para elas.
— Elas estão com medo de mim.
— São excelentes julgadoras de caráter.
— Vai se foder.
— Estamos progredindo.
O porco apareceu atrás dela sem fazer quase nenhum barulho, façanha impressionante para algo daquele tamanho.
Enfiou o focinho perto do saco.
Nellie deu um pulo.
— CARALHO!
O porco recuou.
Carapreta latiu.
Eu ri.
— Ele queria ajudar.
— Ele quase me matou!
— Seria constrangedor sobreviver a Belo Horizonte e morrer alimentando um porco.
Ela apontou para o animal.
— Quanto pesa essa coisa?
— Muito.
Voltamos para o trailer.
Preparei o café da manhã.
Ovos com bacon.
Torradas grossas com manteiga e mel.
Café com leite.
Nellie sentou e ficou alguns segundos olhando para o prato.
— Isso deve ter calorias suficientes para alimentar uma família.
— Posso tirar.
Puxou o prato para mais perto.
— Nem pensa.
Começou pelos ovos.
Depois bacon.
Depois uma torrada quase inteira.
Na segunda, espalhou mais manteiga e deixou o mel escorrer pelas bordas.
— Passei anos fingindo que café da manhã era fruta, granola e alguma coisa sem gosto feita de aveia.
Mordeu.
Fechou os olhos.
— Os veganos não sabem o que estão perdendo.
— Alguns sabem. Só escolheram sofrer.
Ela já estava atacando outro pedaço de bacon.
— Fodam-se as calorias.
— O apocalipse está fazendo maravilhas por você.
— Cala a boca e passa o mel.
Passei.
Ela devorou tudo.
Enquanto eu completava o café, começou a explorar as estantes.
Dostoiévski.
Shakespeare.
Machado de Assis.
Homero.
Hemingway.
Orwell.
Asimov.
Koestler.
Livros gastos, riscados, cheios de anotações.
Pela porta aberta, Nellie viu as varas de pescar sob o beiral do galpão.
— Então você realmente pesca.
— Mal.
Ela se virou.
— Finalmente alguma coisa em que você admite incompetência.
— Os peixes são testemunhas hostis.
Então viu a máquina de escrever.
Ao lado, uma pilha grossa de folhas.
Passou os dedos pelas teclas.
— Você escreve?
— Às vezes.
— No computador?
— Quando quero corrigir.
Apontei para a máquina.
— Quando quero pensar, uso isso.
— Isso é ridiculamente antiquado.
— Funciona.
— Você tem um fetiche por coisas velhas.
Ela percebeu a abrangência da própria frase.
— Meu Deus.
— Você abriu a porta.
— E você entrou correndo.
Enquanto terminávamos o café, contou um pouco da própria vida.
Criadora de conteúdo.
Lifestyle.
Branding pessoal.
Campanhas.
Parcerias.
Centenas de milhares de seguidores.
Em algum momento mencionou que havia aberto uma conta no OnlyFans como plano B.
— E funcionava?
— Nunca postei nada.
— Então não era plano. Era uma aba aberta.
Bebeu café como se não tivesse dito nada.
— E qual seria meu plano C?
Olhei pela janela.
O porco tentava alcançar alguma coisa do outro lado de uma cerca.
Ela acompanhou meu olhar.
— Nem fodendo.
— Promoção exige responsabilidade.
— Aquilo pesa mais que eu.
— Consideravelmente.
— Prefiro o OnlyFans.
— O porco também, pelo jeito.
Pegou o celular.
A Starlink estava mais estável.
Ela tinha nas mãos provavelmente o maior conteúdo que produziria na vida.
Carros enlouquecendo.
Incêndios.
A fuga.
O tiro.
Belo Horizonte apagando.
O refúgio.
O riacho.
O possível fim do mundo.
Milhões de visualizações.
Ficou alguns segundos olhando para a tela.
Depois colocou o telefone sobre a mesa.
Virado para baixo.
— Não vai postar?
— Não.
— Por quê?
Passou o dedo pela borda da caneca.
— Talvez existam coisas que eu queira lembrar sem mostrar.
Não respondi.
Aquilo merecia ficar sem sarcasmo.
Depois do café mostrei o resto da propriedade.
Não como visita guiada.
Apenas onde estavam as coisas de que ela poderia precisar.
A água vinha de uma captação acima do riacho. Uma bomba enchia o reservatório.
A energia dependia do que houvesse disponível: sol, vento, baterias.
No galpão ficavam ferramentas e um velho gerador a diesel para quando o resto não bastasse.
— Quanto tempo dá para ficar aqui?
— Não sei.
Nellie parou.
— Você não sabe?
— Sei que dá para ficar bastante. Quanto depende do que quebrar, do que acabar e do que a gente fizer de errado.
— Finalmente.
— O quê?
— Uma coisa que você não sabe.
— Tenho uma lista.
— Posso ver?
— Não.
Sorriu.
À tarde, o fim do mundo começou a ser discretamente desmentido.
A energia voltava.
Os hospitais deixavam de depender dos geradores.
Alguns aviões voltavam a pousar.
Os governos tinham conseguido conter a situação.
Por pouco.
Houvera mísseis.
Houvera respostas.
E houvera, sim, algumas detonações nucleares na Ucrânia.
Poucas.
Menos do que parecera na noite anterior.
Ainda assim, suficientes para lembrar ao mundo que quase tudo podia ter terminado de maneira muito pior.
Se o mundo ainda estava ali, em algum lugar da cadeia de comando alguém não apertara o próximo botão.
Talvez mais de alguém.
Com as comunicações retornando, chegaram também as correções.
Alguns aviões dados como derrubados estavam pousados.
Algumas cidades “destruídas” continuavam de pé.
Certas explosões eram antigas.
Alguns discursos, falsos.
E algumas imagens jamais haviam existido fora de uma máquina.
O estrago era real.
O resto era mais difícil de medir.
Durante algumas horas, ninguém soubera exatamente onde terminava o fato e começava a fabricação.
Nellie lia as atualizações no telefone.
— Então não acabou?
— O mundo?
— É.
Olhei em volta.
O riacho corria.
Carapreta dormia na sombra.
Dogmeat fuçava alguma coisa perto do galinheiro.
— Ainda não.
Ela soltou o ar devagar e voltou para a tela.
— As montadoras estão dizendo para ninguém tentar ligar os carros afetados até nova orientação.
— Sensato.
Ela continuou lendo.
— Vão mandar uma atualização.
Olhei para ela.
Ela olhou para mim.
Então começou a rir.
— Uma atualização…
— O Universo tem senso de humor.
As causas continuavam sob investigação.
Ataque.
Sabotagem.
Falha de autenticação.
Atualização defeituosa.
Erro humano.
Governos procuravam culpados.
Havia mortos.
Incêndios ainda queimavam.
Regiões inteiras continuavam sem energia.
Infraestrutura tinha sido destruída.
Ainda assim, chegáramos perto demais para continuar tratando aquilo como hipótese.
As bolsas permaneciam fechadas. Talvez por prudência. Talvez porque ninguém ainda tivesse coragem de colocar um número no desastre.
Os bancos, porém, já funcionavam o suficiente para uma atividade essencial.
Cobrar.
Em Belo Horizonte, milhares de carros de duzentos mil reais continuavam imóveis.
As prestações, não.
Nellie ergueu os olhos do telefone.
— Meu carro pode ter virado sucata e eu ainda tenho que pagar?
— Finalmente você encontrou uma tecnologia verdadeiramente resiliente.
— Qual?
— A dívida.
Ela me encarou.
— Você consegue ser filho da puta até depois do fim do mundo.
— Tecnicamente, o mundo continua aqui.
Pensei um pouco.
— Foi só um aviso.
Naquela tarde, Nellie voltou à máquina de escrever.
Mais especificamente, à pilha de páginas ao lado dela.
Pegou a primeira.
Depois outra.
Foi lendo.
No começo rápido.
Depois devagar.
Eu estava diante dos monitores quando percebi que o silêncio dela tinha mudado.
— Quando você escreveu isso?
— Faz tempo.
— Quanto tempo?
— Tempo suficiente.
No manuscrito havia uma cidade sem luz, uma estrada subindo uma montanha, uma loira de língua afiada e um homem que parecia confiar demais em coisas antigas.
Havia também um cachorro.
Nada era igual.
Tudo era parecido demais.
Depois que alguma coisa acontece, histórias antigas ganham a estranha habilidade de parecer profecias.
A cabeça completa o resto.
Era uma explicação boa.
Racional.
Provavelmente verdadeira.
Não disse nada.
Mais tarde fomos até o riacho.
Nellie levou algumas páginas.
Sentou numa pedra sob o sol, com os pés na água.
Ficou um tempo lendo antes de fechar o manuscrito.
— O homem dessa história é você?
— Todo escritor mente quando responde essa pergunta.
— E a mulher?
— Também.
— Ela é muito chata.
— Bastante.
— Mas bonita.
— O narrador parece achar.
— O narrador é meio tarado.
— Literatura exige personagens complexos.
Ela mergulhou os pés um pouco mais.
Olhou para a água.
Depois para as montanhas.
— Você vai ficar aqui?
— Era o plano.
— Então é isso? Galinhas, aquele porco absurdo, pesca, livros e essa caminhonete horrorosa?
— Ela trouxe você até aqui.
— Isso não melhora a aparência dela.
— Nem tudo precisa parecer bom numa fotografia.
Ela cruzou os braços.
— Essa foi para mim?
— Se serviu, economizamos tempo.
Sorriu.
Depois ficou séria.
Tirou os pés da água e se levantou.
— Posso ficar alguns dias?
— Pode.
— Só isso?
— Até as coisas melhorarem, fica. Depois você decide.
— Você não decide por mim?
— Não.
— Nem vai tentar?
Olhei para o porco, que atravessava o terreno com Carapreta atrás.
— Posso decidir uma coisa.
— O quê?
— Amanhã você alimenta aquilo.
Ela acompanhou meu olhar.
O porco parou.
Grunhiu.
— Nem fodendo.
— Aula às sete.
— Vai se foder.
Ela passou por mim.
Parou.
Voltou.
Ficou perto demais.
Olhou diretamente nos meus olhos.
Ela me beijou.
Curto.
Sem cerimônia.
Afastou-se.
— Não se empolga.
— Tenho sessenta anos. Economizo energia.
Ela me olhou como quem já possuía evidência experimental suficiente para contestar a afirmação.
— Essa mentira perdeu credibilidade ontem.
Carapreta observava.
Dogmeat também.
— Agora tenho plateia demais.
Nellie riu.
Naquela noite, fui até o galpão.
As varas de pescar estavam encostadas perto da porta.
Girei a chave da caminhonete.
O velho diesel pegou imediatamente.
Tosse.
Vibração.
Fumaça.
Desliguei.
Não precisava verificar nada.
Talvez quisesse apenas ouvir uma máquina fazendo exatamente o que se esperava dela.
Do trailer vinha luz.
Nellie estava perto da máquina de escrever, com o manuscrito aberto.
Virou uma página.
Depois outra.
— O copo Lagoinha.
— Eu sei.
Ela manteve o dedo sobre a linha.
— Explica.
Pensei.
— Não consigo.
Dessa vez ela não insistiu.
Do lado de fora, Carapreta latiu.
Dogmeat respondeu com um grunhido.
O riacho continuava correndo.
A Starlink continuava funcionando.
Nellie chegou à última página.
Ficou imóvel.
No alto da folha havia três palavras.
As mesmas que durante anos haviam vendido carros, futuro, sucesso e a confortável ideia de que sonhos podiam ser comprados em prestações.
BUILD YOUR DREAMS
Nellie ficou olhando.
Pegou uma caneta vermelha.
Riscou as três palavras com força.
Abaixo escreveu:
FUCK YOUR DREAMS
Olhou para mim.
— Melhor.
Não discuti.
Era.
Ela largou a caneta, segurou minha camisa e me beijou.
Depois me empurrou de leve na direção da cama.
Pela segunda vez em dois dias, achei prudente obedecer.

Maurício Veloso Brant Pinheiro, PhD
Professor of Physics, Federal University of Minas Gerais (UFMG)
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